
29/09/2026
Os primeiros dias da Semana do Clima em Nova York deixaram uma impressão muito clara: já não basta concordar com o diagnóstico. É preciso encarar, com seriedade, a necessidade de mudar a forma como empresas, governos e instituições multilaterais atuam diante dos desafios do nosso tempo.
No SDG in Brazil, realizado pelo Pacto Global da ONU, ouvi uma mensagem particularmente relevante para nós: empresas e governos precisam estar no mesmo lado da mesa. Sr. Ole Lund Hansen, chefe de operações do Pacto Global da ONU destacou a criatividade das empresas brasileiras e o potencial que temos para liderar as transformações necessárias ao alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O Brasil convive, ao mesmo tempo, com uma das maiores biodiversidades do planeta, grandes desigualdades sociais, desafios de infraestrutura e um setor produtivo capaz de criar soluções em escala. Essa combinação pode nos tornar um laboratório de respostas para o mundo quando a criatividade se transformar em execução, políticas públicas consistentes e colaboração de longo prazo.
Também foi importante ouvir do embaixador do Brasil na ONU, Sérgio Danese, um lembrete sobre as conquistas históricas da instituição. Ao longo de décadas, a ONU ajudou a ampliar avanços humanitários, ambientais e de paz como resultado de cooperação internacional, pactos e persistência.
Ao mesmo tempo, a instituição precisa evoluir para responder aos problemas modernos. A crise climática, as novas tensões geopolíticas, a desigualdade e a velocidade das transformações tecnológicas exigem uma revisão crítica de estruturas, métodos de trabalho e compromissos. A discussão sobre a relevância da ONU diante de uma nova configuração geopolítica já está em curso — e ela é necessária para que o multilateralismo continue sendo parte da solução.
Os painéis com Motiva, Nestlé e Bradesco trouxeram experiências concretas que ajudam a tirar a sustentabilidade do campo abstrato. Cada uma, a seu modo, mostrou que a transição acontece quando o tema entra na estratégia, na operação e na cultura das organizações. Não se trata de criar uma agenda paralela, mas de redesenhar a forma de decidir, investir e medir resultados.
O debate sobre financiamento também avançou. A experiencia do banco Itaú sobre o Eco Invest Brasil evidenciou como mecanismos financeiros podem ajudar a direcionar capital para iniciativas que combinem impacto, competitividade e desenvolvimento. Sem recursos bem alocados, metas climáticas continuam sendo boas intenções. Com instrumentos adequados, elas passam a disputar espaço real no orçamento, nas decisões de investimento e nos planos de crescimento.
No dia 21, participei da reunião de conselho da plataforma Inovação e Sustentabilidade do Fórum Econômico Mundial. Ali, a mensagem foi semelhante: o mundo mudou, e as nossas ações também precisam se adaptar. Ajustar a rota não significa reduzir a ambição climática, significa buscar mais efetividade.
Precisamos de um pragmatismo consciente do nosso papel na sustentabilidade, mas igualmente seguro de que os negócios precisam se perpetuar para financiar a própria transição. Empresas financeiramente saudáveis têm mais capacidade de inovar, investir, contratar, medir impacto e escalar soluções. Sustentabilidade e resultado não são forças opostas: quando bem integrados, tornam-se condição para a resiliência de longo prazo.
Nesse contexto, a tecnologia pode automatizar processos repetitivos, qualificar dados, reduzir assimetrias de informação e liberar tempo para o que realmente importa: estratégias capazes de unir resultado econômico e equilíbrio socioambiental.
Na economia circular e na logística reversa, isso é especialmente visível. A tecnologia precisa simplificar a vida de quem opera na ponta, tornar a rastreabilidade mais confiável, valorizar o trabalho das pessoas que recuperam materiais e oferecer dados transparentes para empresas e governos. Inovação não pode ser um fim em si mesma; precisa resolver a complexidade real do Brasil.
Esta primeira etapa da Semana do Clima deixa, portanto, um convite à maturidade. As instituições precisam se renovar. Governos e empresas precisam cooperar. O capital precisa alcançar as soluções certas. E nós precisamos ter coragem para mudar modelos que já não respondem à urgência do presente.
O desafio é enorme, mas a oportunidade também. A pergunta não é mais se a mudança será necessária. Ela já é. A pergunta é se conseguiremos conduzi-la com velocidade, responsabilidade e a inteligência necessária para transformar ambição em resultado.
Fonte: CicloVivo
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