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A arquitetura invisível da reciclagem

09/07/2026

Durante décadas, aprendemos a reconhecer os catadores como protagonistas da reciclagem brasileira. Esse reconhecimento é justo. Mais do que isso, é necessário. Afinal, sem o trabalho de milhares de homens e mulheres que, por necessidade ou falta de alternativas, encontraram nos resíduos uma forma de sustento, dificilmente o Brasil teria alcançado os níveis de recuperação de materiais que possui hoje.
Existe uma dívida histórica com essas pessoas. Durante muito tempo, quando praticamente inexistiam políticas públicas estruturadas, investimentos consistentes ou interesse econômico suficiente para desenvolver a reciclagem, foram elas que mantiveram essa atividade viva.
Mas esse reconhecimento também revela uma das maiores contradições da economia circular brasileira.
Os catadores não se tornaram protagonistas porque planejamos uma logística reversa eficiente, estruturada e inclusiva. Tornaram-se protagonistas porque, ao longo das últimas décadas, a recuperação de materiais encontrou na vulnerabilidade socioeconômica uma forma de compensar a ausência de uma infraestrutura capaz de operar com escala, produtividade e capacidade de transformação.
Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo a ABRELPE (2025), o Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Apenas cerca de 8,7% dos resíduos secos retornam à reciclagem. Mais da metade desse fluxo chega às cadeias de valorização pelas mãos dos catadores, e não por sistemas estruturados de coleta seletiva. Mesmo assim, uma parcela significativa desse material ainda se perde durante a triagem em razão da contaminação, da baixa qualidade da separação na origem e das limitações operacionais da própria estrutura de recuperação.
Esses dados revelam duas verdades que convivem lado a lado. A primeira é que os catadores continuam sendo indispensáveis para a reciclagem brasileira. A segunda é que seguimos atribuindo a esse elo uma responsabilidade muito maior do que a capacidade estrutural que lhe oferecemos.
É nesse ponto que começa uma reflexão ainda pouco explorada. Durante anos, celebramos a capacidade de inclusão da reciclagem. Entretanto, dedicamos menos atenção a uma pergunta fundamental: essa inclusão tem sido capaz de promover desenvolvimento para a cadeia e para as pessoas que dela dependem?
Porque gerar renda não significa, necessariamente, gerar valor.
Essa distinção parece sutil, mas muda completamente a forma como compreendemos o problema. Uma atividade pode gerar renda e, ainda assim, produzir pouco valor econômico, baixa capacidade de investimento, reduzida inovação e limitadas oportunidades de desenvolvimento. Quando isso acontece, o sistema continua funcionando, mas encontra dificuldade para evoluir.
Não se trata de uma crítica aos catadores ou às cooperativas, tampouco de questionar a importância da inclusão social construída nas últimas décadas. O convite é outro: observar a arquitetura da cadeia que construímos e perguntar se ela possui capacidade para sustentar o futuro da economia circular.
Nas colunas anteriores refletimos como os aterros sanitários podem produzir efeitos rebote, como os incentivos econômicos moldam o comportamento dos sistemas e por que a reciclagem precisa tornar-se competitiva para disputar espaço com o aterramento.

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