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Êxito de megaoperação para resgatar ararinhas-azuis não dissipa dúvidas sobre futuro da espécie

02/06/2026

Nos últimos anos, o Brasil se (mal) acostumou a ver cenas da Polícia Federal chegando de madrugada em residências de suspeitos de malfeitos para surpreendê-los. Uma operação cinematográfica realizada na última quarta (27) no sertão baiano repetiu esse script, mas, numa situação rara, os alvos do mandado de busca e apreensão eram 69 inocentes ararinhas-azuis (e duas araras maracanãs).
Ainda mais singular que o perfil da operação é a espécie que a motivou: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), endêmica da caatinga brasileira, foi considerada extinta da natureza em 2000 e é uma das aves mais raras e cobiçadas do mundo.
Para isolá-las de um surto de circovírus, uma iniciativa conjunta entre o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a PF as retirou de um criadouro particular em Curaçá, na caatinga, e as transferiu para um centro de quarentena na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE).
Comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, a megaoperação durou 16 horas e contou com 40 pessoas, sendo 31 envolvidas diretamente na transferência (veterinárias e veterinários, entre os quais três peritos criminais da Polícia Federal especializados na área, biólogas, tratadores etc) e mais nove integrantes da PF –dois delegados e sete agentes.
Participaram também o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, do governo da Bahia) e o Cemafauna (Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga), da Univasf. A chefe de operações foi a bióloga Julia Barbosa, analista ambiental do ICMBio.
A reportagem da Folha acompanhou tudo. O grupo saiu de Petrolina num comboio de nove veículos (vans e picapes) às 2h50 da madrugada, chegando pouco antes das 6h ao Criadouro Ararinha-azul, na zona rural de Curaçá, quando o dia começava a raiar. Uma viatura com o delegado Ulisses Ultchak, da PF em Juazeiro (BA), e cinco agentes, foi a primeira a entrar no local.
Havia uma atmosfera de tensão, pois a empresa ignorou orientações do ICMBio desde a descoberta do surto e mantém uma relação tensa com as autoridades. O segurança não mostrou resistência. O australiano Tyson James Chapman, funcionário responsável pelo criadouro, já estava acordado e se preparava para alimentar as aves. Ele foi uma das testemunhas a assinar o mandado de busca autorizado pela Justiça Federal em Juazeiro em resposta à solicitação do delegado Fabio Muniz, da PF em Salvador. Chapman parecia desconsolado e não quis dar entrevista.
Para retirar as aves dos recintos –divididos na sede principal e na vizinha Fazenda Concórdia–, as equipes vestiram EPIs (equipamentos de proteção individual), que eram borrifados com álcool 70% e sanitizante à entrada e à saída.
Com ajuda de um puçá, veterinários e tratadores capturavam as ararinhas e seguiam um protocolo antes de colocá-las nas caixas de transporte: leitura do microchip de identificação de cada uma, exame detalhado dos bichos e preenchimento de ficha de avaliação.
Ao menos quatro aves contaminadas com o circovírus (segundo teste feito em dezembro) estavam no mesmo recinto de outras que testaram negativo, o que causou revolta na equipe. Causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos, o patógeno é extremamente contagioso entre essa família de pássaros que inclui araras, papagaios e periquitos –mas não entre humanos nem aves de produção, como galinhas.
O circovírus não tem cura, pode matar as aves e tem como principais sintomas o embranquecimento das penas e deformidades no bico.

Conclua a leitura desta reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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