
22/01/2026
As mudanças climáticas, a poluição e décadas de uso excessivo levaram o mundo a um estado de "falência hídrica", deixando fontes essenciais de água doce irremediavelmente danificadas e bilhões de pessoas sem água suficiente para atender às suas necessidades básicas, declararam especialistas das Nações Unidas nesta terça-feira (20).
Em um relatório abrangente da Universidade das Nações Unidas (UNU), o braço de pesquisa da agência internacional, cientistas compararam a humanidade a uma pessoa mergulhando em ruína financeira. O mundo não apenas gasta excessivamente sua "renda" anual de água —os fluxos renováveis que vêm da chuva e da neve— mas também esgotou as "economias" de longo prazo armazenadas em aquíferos subterrâneos, geleiras e ecossistemas.
Ao mesmo tempo, as pessoas estão permitindo que a poluição proveniente de resíduos humanos, agricultura e operações industriais contamine a diminuta água doce que resta —como alguém ateando fogo aos últimos dólares em sua carteira.
Os sinais dessa emergência são alarmantes e abundantes, disse o autor principal Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU. Mais da metade dos grandes lagos do mundo estão encolhendo. Aproximadamente 70% dos aquíferos subterrâneos estão em declínio de longo prazo. Secas em grande escala tornaram-se mais frequentes e generalizadas, custando em média US$ 307 bilhões (R$ 1,6 trilhão) anualmente. Cerca de 4,4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água durante pelo menos um mês por ano.
Madani e seus colegas argumentam que não é suficiente referir-se à situação como "estresse hídrico" ou "crise hídrica" —linguagem frequentemente usada pela ONU e outras instituições internacionais— porque o desafio não desaparecerá tão cedo.
As atividades humanas já causaram danos irreversíveis a muitos dos sistemas que geram, regulam e armazenam água doce, diz o relatório.
O aumento das temperaturas, impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, alterou os padrões de precipitação e aumentou a taxa de evaporação das paisagens. O desmatamento e o desenvolvimento destruíram os ecossistemas que filtram e limpam a água da chuva. A extração excessiva está causando o colapso de aquíferos subterrâneos que armazenam águas subterrâneas, reduzindo sua capacidade de recarga. E as geleiras que estão derretendo em montanhas, que se acumularam ao longo de séculos ou milênios, não voltarão a crescer durante uma vida humana.
"O que aparece na superfície como uma crise é, na verdade, uma nova linha de base", escrevem os autores do relatório. "Algumas perdas são agora inevitáveis, e a tarefa central é prevenir mais danos irreversíveis enquanto reorganizamos o sistema em torno de um orçamento hidrológico menor."
As políticas existentes são muito estritamente focadas em melhorar o saneamento e a água potável e ajudar as indústrias a se tornarem incrementalmente mais eficientes, diz o relatório.
Antes da próxima conferência das Nações Unidas sobre água nos Emirados Árabes Unidos, o relatório pede aos líderes que declarem uma "falência hídrica global" e adotem uma nova abordagem para gerenciar o suprimento cada vez menor de água segura no mundo. Caso contrário, adverte, o mundo se encaminhará de maneira mais profunda para um futuro de escassez de alimentos, surtos de doenças e conflitos motivados pela água.
Madani, que nasceu em Teerã, convenceu-se da necessidade de uma nova abordagem para a gestão da água depois de assistir a um vídeo em preto e branco de décadas atrás sobre a escassez na capital iraniana. O narrador referiu-se à situação como uma "crise" —a mesma linguagem sendo usada agora para descrever a seca de vários anos que ameaçou o abastecimento de água de Teerã e levou o presidente Masoud Pezeshkian a cogitar a evacuação da cidade.
"Por quanto tempo podemos chamar algo assim de crise?" disse Madani. "Uma crise significa um choque —é uma anomalia que deve ser abordada com urgência, mas ainda assim você tem esperanças de que a linha de base possa ser restaurada."
"Acho que é uma grande mentira se você está comunicando ao público que esta é uma situação temporária", acrescentou. O que o Irã —e o mundo— estão realmente enfrentando é "uma situação pós-crise de fracasso".
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