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Sem ampliar áreas verdes, São Paulo caminha para recordes de temperatura

01/07/2025

Especialistas apontam que, sem a democratização do verde e a criação de mais áreas florestais, a capital paulista terá recordes ainda maiores de temperatura, impactando diretamente a qualidade de vida, especialmente em bairros sem vegetação.
O cientista Carlos Nobre, do Instituto de Pesquisas Avançadas da USP, explica que parte do aquecimento sentido em São Paulo é local, resultado da forma como a cidade foi ocupada. "Quando a vegetação é substituída por asfalto e concreto, perde-se a evapotranspiração que resfria o ar. Esses materiais absorvem muito mais calor e o liberam lentamente, criando as chamadas ilhas de calor urbanas", diz.
"Isso é o aquecimento global? Não, parte é o aquecimento global, que está aquecendo todo o planeta, mas esse evento extremo, ele é totalmente relacionado com a ilha urbana de calor."
Nobre destaca que o fenômeno altera o regime climático da cidade: "O ar mais quente sobe com maior velocidade, transporta umidade para a atmosfera, forma nuvens pesadas e tempestades intensas. Eventos que antes ocorriam uma vez por década, na década de 40, hoje acontecem mais de uma vez por ano."
Além disso, as ilhas de calor intensificam outros fenômenos, como ventos fortes, registrados em recordes de velocidade em São Paulo em outubro de 2023 e 2024.
A distribuição desigual das áreas verdes em São Paulo agrava o problema. Relatório de dezembro de 2024 da ONU-Habitat em parceria com a Prefeitura de São Paulo, que avaliou cem parques municipais, revelou uma correlação entre vulnerabilidade socioeconômica e a qualidade dos parques. Regiões com maior vulnerabilidade, como a zona leste e o extremo sul, apresentaram parques com pontuações inferiores em diversos indicadores, incluindo infraestrutura e segurança.
Segundo a pesquisadora Ana Terra Maia, do Centro Basco para as Alterações Climáticas (Espanha), existe um grave risco de que projetos de "esverdeamento" urbano, essenciais em bairros em que ocorrem mais ondas de calor, acabem por expulsar as populações mais vulneráveis das áreas beneficiadas, devido à valorização imobiliária.
"Precisa-se democratizar o verde para que ele chegue às áreas hoje mais cinza. Mas democratizar também é ter o cuidado para que esses lugares não passem por um processo grave de gentrificação."

Fonte: Folha de S. Paulo

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