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Expedição à Antártida corre para aproveitar janela entre ciclones e evita falar de política

03/12/2024

O glaciólogo brasileiro Jefferson Cardia Simões, 66, lidera a missão, iniciada no último dia 23, que busca completar a maior circum-navegação na Antártida. Em meio a cientistas de diversas nacionalidades disputando os laboratórios do quebra-gelo científico russo Akademik Tryoshnikov, o pesquisador enfrentará a maior distância que já percorreu em uma expedição de navio.
O primeiro desafio era aproveitar uma janela de tempo entre ciclones e evitar ondas gigantescas. Superada essa etapa, o Akademik Tryoshnikov acelera para os experimentos iniciais no mar gelado e para a primeira estação científica na Antártida.
Simões, que é coordenador científico do Centro Polar e Climático da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), dá o pontapé da série Diário da Antártida, que semanalmente trará bastidores, desafios e achados da expedição.
Passamos há alguns dias ao largo da ilha Georgia do Sul. O pessoal saiu correndo para fora para ver o primeiro iceberg e a ilha. A partir dali, já estávamos no círculo Polar.
Ao redor do continente antártico temos um cinturão de baixa pressão que reflete exatamente a corrente circumpolar antártica, que está abaixo no oceano. É um ciclone atrás do outro, então, você tem que procurar janelas entre um ciclone e outro para evitar um mar com ondas de até nove metros. Você não quer pegar isso.
Passamos pela janela e o mar ficou moderado. Mas ainda tinha gente um pouco enjoada, como sempre.
Eu mesmo sou um homem de terra. Sou estoico neste ponto: navio para mim é o meu trabalho. Tenho que executar o trabalho, mas eu preferia estar em um acampamento, porque é muito mais estável. Tem também a questão de não ficar restrito a um ambiente, evidentemente, muito fechado. Você pode ir no gelo, na neve, é um espaço infinito. Para quem marea —todos mareiam, uns mais do que os outros— não é das coisas mais agradáveis, mas o trabalho tem que ser feito, né? E o mar vai ficar cada vez mais tranquilo conforme nos aproximamos da frente de mar congelado.
Estávamos no ponto em que só tínhamos navegado. Até o momento, muito trabalho de escritório, preparação e negociação sobre onde vamos amostrar [recolher amostras], quem vai amostrar, quem vai desembarcar. São as tarefas que precedem o trabalho de campo. Tem um ou outro sensor, é claro, captando dados continuamente desde o Rio Grande, como precipitação, dados meteorológicos e dados na superfície do oceano.
Daqui para a frente, o mar está cada vez mais frio. Quando chegar ao limite do gelo marinho, vamos correr paralelo a ele, para evitar entrar nele, o que tornaria a navegação muito mais lenta. O limite do gelo marinho —que neste ano está excepcionalmente grande— está a mais de duas centenas de quilômetros da costa.
A extensão grande do gelo marinho vai dificultar a aproximação de algumas das estações. Nós estamos navegando a 13 ou até 14 nós. De repente, entra no gelo marinho e vai para dois nós, porque o navio vai quebrando o gelo. E só temos 60, no máximo 65 dias para fazer todo o trabalho. Então ainda tem chance de passarmos correndo por algumas estações.
O gelo marinho mais extenso já era previsto. Em anos de El Niño, a região em que estamos no nordeste do mar de Weddell, tem a maior extensão de gelo marinho. Estamos atrasados devido ao mar congelado. No momento já entramos na área do Tratado da Antártica. Começamos a seguir o limite do gelo marinho em direção à estação científica russa Novolazarevskaya. Não chegaremos lá antes de 6 de dezembro.
Mais adiante, ao redor da Antártida, o gelo marinho diminui. E também será mais tarde na estação do ano, no verão, e o gelo estará derretendo mais.
Começaremos hoje, domingo (1º) pesquisas oceanográficas, com diferentes tipos de sondas —que alcançam até mil metros de profundidade—, obtendo informações sobre temperatura, correntes oceânicas, salinidade e outros parâmetros. No heliponto, começamos a soltar balões e sondas atmosféricos, para pegar dados de várias altitudes. Também começam as movimentações para amostrar sedimentos do fundo oceânico.
Ao chegarmos à estação Novolazarevskaya, alguns pesquisadores devem descer para amostrar solo congelado, micro-organismos, líquens e musgos. Não devemos encontrar mais do que isso —ainda bem, porque, se encontrasse, o processo de derretimento do gelo estaria acelerado. E já tem um pessoal que está observando pássaros. Começou-se a observar os grandes albatrozes.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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