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Brasília desmatou e asfaltou, mas sobreviveu como capital planejada

20/08/2024

O pesquisador americano Andrew Stokols, que andou por boa parte das capitais da Ásia, nunca foi a Brasília. "Mas fui formado em planejamento urbano, PhD em planejamento urbano, Brasília obviamente é estudada na história das cidades planejadas do século 20", diz.
Segundo ele, tanto a brasileira como a indiana Chandigarh são cidades utópicas modernistas que fracassaram no que prometiam. Brasília, aberta em 1960, é associada principalmente ao arquiteto Oscar Niemeyer; a indiana, de 1953, ao arquiteto francês de origem suíça Le Corbusier.
No caso brasileiro, houve impacto ambiental e até no clima, com desmatamento, asfalto e os carros, além da desigualdade com as cidades-satélites apartadas do Plano Piloto. "Muitas vezes falamos dela como um fracasso", ressalva Stokols, "mas o fato é que é até hoje a capital do Brasil".
Sua própria sobrevivência e adaptação seria sinal de êxito, acrescenta ele, ao lado de outras no século 20, como Canberra, na Austrália. Cumpriu, ao menos, sua tarefa de levar a capital para o interior do país, promessa de campanha do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976).
No Brasil, oito capitais estaduais consideradas planejadas poderiam ser, por esse critério, classificadas como bem-sucedidas. A primeira é Salvador, também a primeira capital do Brasil, de 1549. Foi projetada pelo arquiteto militar português Luís Dias como um misto de fortaleza e centro administrativo.
Teresina surgiu em 1852, em parte para equilibrar geopoliticamente o Piauí e com um plano voltado a resistir às enchentes então comuns na área. Três anos depois, foi a vez de Aracaju, em Sergipe, em forma de tabuleiro, também com atenção a enchentes. Belo Horizonte, de 1897, foi projetada já procurando escapar do tabuleiro e com grandes bulevares.
Em 1935, Goiânia foi além, seguindo o ideal de cidade-jardim, também buscado por Canberra, de 1913. Boa Vista, remodelada de 1944 a 1946, retomou o projeto radial, como em Belo Horizonte, arborizada e com ruas amplas.
A mais recente é Palmas, de 1990, projetada para abrigar um milhão de pessoas, mas que ainda não passa de 300 mil —a exemplo de cidades asiáticas planejadas no século 21.

Fonte: Folha de S. Paulo

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