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Arsênico contamina mulheres e bebês no Peru e traz riscos à saúde

18/07/2024

Sayuri Moreno amamenta seu bebê apesar de estar contaminada com arsênico. Os médicos recomendaram a ela a medida mais drástica possível: deixar a área no norte do Peru, onde centenas de famílias foram expostas ao composto devido à atividade mineradora.
O arsênico inorgânico é considerado o principal contaminante químico da água potável, classificado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como cancerígeno e uma das dez substâncias mais perigosas para a saúde pública.
Nos bairros pobres de Huarmey, na província de Áncash, onde vivem cerca de 3.000 pessoas próximas ao mar, as autoridades de saúde identificaram 120 casos de moradores com altos níveis de arsênico no corpo, de um total de 140 exames realizados no ano passado, de acordo com o Ministério da Saúde peruano.
A maioria dos afetados são mulheres e crianças. Sayuri, 37, com cabelos negros e expressão séria, soube de sua contaminação durante um exame pré-natal: "Senti medo, porque tinha ouvido falar que isso causava câncer".
Seus filhos, Keity, 11, e Iker, 7, também apresentaram níveis de arsênico acima do permitido. E, embora Valeria, de 11 meses, tenha nascido aparentemente normal, o conselho do médico foi o mesmo: "Deixar este lugar e não amamentar meu bebê", relatou Sayuri em entrevista à AFP.
Essa é uma recomendação que Sayuri e seu marido, Alan Guerrero, um pescador de 38 anos, não conseguiram seguir, assim como muitas outras famílias de Puerto Huarmey e do distrito 9 de Outubro.
Em Puerto Huarmey, a maioria vive em casas de madeira e sobrevive da pesca. Atrás desse assentamento, morros com dutos subterrâneos transportam altos níveis de cobre e zinco para o porto de embarque. O arsênico está naturalmente misturado com o cobre, do qual o Peru é o segundo maior produtor mundial, depois do Chile.
Cerca de 140 milhões de pessoas no mundo têm consumido água com altos níveis de arsênico, seja diretamente ou através de alimentos preparados com água contaminada, segundo a OMS. No Peru, as autoridades ainda não determinaram se a contaminação por arsênico provém da operação mineradora, embora José Saldívar, diretor do Hospital de Huarmey, considere "preocupante" tanto o número de afetados quanto o nível de arsênico em seus organismos.
"Cada vez que realizamos mais exames, é muito provável que 80% dos casos apresentem níveis elevados de arsênico", afirma Saldívar. O limite aceitável desse metal no corpo, segundo o Ministério da Saúde do Peru, é de 20 microgramas por litro (mg/l) de urina.
Nos exames de Sayuri, a concentração encontrada foi de 60 mg/l; sua filha mais velha apresentou 81 mg/l, e Iker, 70 mg/l. A intoxicação aguda por arsênico pode variar de lesões cutâneas a câncer de pele, bexiga e pulmão, sendo os casos mais graves tratados com agentes quelantes.
"Não existe cura. A melhor intervenção é identificar qual é a fonte e controlar essa fonte. Infelizmente, isso não depende necessariamente do sistema de saúde", explica Percy Herrera, chefe da Equipe de Metais Pesados do Ministério da Saúde.
Seguindo a recomendação dos médicos, Sayuri e sua família deixaram Puerto Huarmey para se "desintoxicar", mas tiveram que retornar três meses depois por falta de alternativas à pesca. Agora, precisam gastar com água engarrafada e leite em pó para o bebê, mas nem sempre têm dinheiro suficiente.
"Estamos abandonados no porto, não temos ajuda de ninguém, enfrentamos uma mineração tão poderosa que não podemos fazer nada", lamenta Alan, que também teme estar contaminado.
Mireya Minaya, também por recomendação médica, deixou Puerto Huarmey por um tempo. Durante a gravidez, detectaram 142 mg de arsênico por litro de urina em seu organismo. Sua pequena Danna, de 11 meses, nasceu contaminada. Mas seu filho Fabricio, 3, que sofre de anemia, tem uma concentração ainda maior: 540 mg/l.
Diante do número de casos, o governo custeou no ano passado o traslado e atendimento dos afetados a Lima, a 290 quilômetros de Huarmey. Mireya, 33, foi hospitalizada por dez dias. Os médicos descobriram tumores nos seus ovários, provavelmente malignos.
"Por medo, não quis saber de mais nada e pedi alta voluntária e voltei", conta ela, que trabalha em um restaurante. Em sua casa de carrizo trançado (uma fibra natural), sem luz nem água potável, Mireya chora sua sorte: "Vivíamos normalmente... e de repente, esse pesadelo. Não sabemos se algum dia vai acabar".

Fonte: Folha de S.

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