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O calor vem matando aos milhares, e os grandes eventos ainda não se ajustaram a isso

16/07/2024

Em grandes eventos no mundo inteiro, as cenas de estresse térmico extremo estão começando a parecer familiares. Homens mais velhos, com a camisa aberta, deitados de olhos fechados. Barracas de atendimento lotadas de pessoas inconscientes. E filas de fiéis —na religião, na música, nas urnas ou no esporte— suando sob uma nesga de sombra.
As consequências têm sido terríveis. Este ano, durante o hajj, a peregrinação islâmica na Arábia Saudita, pelo menos 1.300 pessoas morreram quando as temperaturas ultrapassaram os 37,7ºC. E, de muitas maneiras, esse grande número de mortos foi apenas o mais recente sinal de que o controle de multidões e as ondas de calor decorrentes das mudanças climáticas estão fadados a acabar em desastre.
Dezenas de mesários morreram enquanto trabalhavam na recente eleição na Índia. No verão setentrional passado, tropas de escoteiros que visitavam a Coreia do Sul para comemorar um jubileu adoeceram por causa do calor, assim como outras pessoas em festivais de música na Austrália, na Europa e na América do Norte.
O calor mata mais pessoas hoje do que qualquer outro evento climático extremo, mas há um atraso cultural perigoso. Muitos organizadores e participantes de grandes eventos, ainda atrasados em relação à curva climática, não compreendem que o verão representa uma ameaça perigosa para grandes aglomerações de pessoas.
"À medida que as estações quentes se tornam mais longas e as ondas de calor chegam mais cedo, vamos ter de nos adaptar", afirmou Benjamin Zaitchik, cientista climático da Universidade Johns Hopkins que estuda eventos climáticos prejudiciais à saúde.
Ele acrescenta que o comportamento individual, a infraestrutura, o gerenciamento de emergências e os calendários sociais precisam efetivamente levar em consideração essa nova realidade.
Entre as muitas maneiras de evitar doenças e mortes sem a necessidade de alta tecnologia, estão as áreas sombreadas, as estações de água, as calçadas pintadas de branco para refletir o calor e os serviços de saúde de emergência para tratar casos graves de insolação.
Alguns lugares quentes e inovadores, como Singapura, construíram espaços públicos que conectam o exterior com o interior. O ar-condicionado foi integrado a áreas onde as pessoas precisam passar algum tempo esperando, como pontos de ônibus.
A solução mais difícil de todas pode ser aquela que, de certa forma, também é a mais simples: educar as pessoas sobre os riscos do calor, inclusive aquelas que estão acostumadas a viver em locais quentes.
Muitas vezes, elas não sabem quais são os primeiros sintomas do estresse térmico ou como as altas temperaturas são especialmente perigosas para quem tem algum problema de saúde preexistente, como doença renal ou hipertensão. Até mesmo medicamentos, como os anticolinérgicos, que tratam alergias ou asma, podem acelerar os problemas ao restringir o suor.
"O calor é um assassino muito, muito complexo, sorrateiro e silencioso", comentou Tarik Benmarhnia, pesquisador ambiental e professor associado da Universidade da Califórnia, em San Diego.
O evento mais complicado de todos pode ser uma peregrinação religiosa. Devotos de muitas crenças —cristãos nas Filipinas, hindus na Índia, muçulmanos na Arábia Saudita— morreram de insolação durante rituais religiosos nos últimos anos. Mas o hajj talvez represente o nível mais alto de perigo.
Toda a Península Arábica é quente e rapidamente vem esquentando ainda mais. As temperaturas noturnas também estão subindo e acabam roubando as horas em que o corpo normalmente se resfria. Como se estende ao longo de cinco ou seis dias, o hajj agrava a exposição ao calor na cidade sagrada de Meca.
O calendário do hajj também é definido pelo ciclo lunar, de modo que os horários programados para a viagem podem ser os mais quentes, como foi o caso deste ano. E, como tendem a ser desproporcionalmente idosos, os peregrinos são mais vulneráveis aos efeitos do calor intenso.
Com o número de mortes deste ano, ele sugeriu que os especialistas em calor se baseassem nos acontecimentos recentes para elaborar rapidamente estratégias de adaptação com as autoridades religiosas.

Conclua a leitura desta matéria clicando na Folha de S. Paulo

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