
11/07/2024
A má gestão dos resíduos sólidos pode levar a uma série de doenças, como as infecciosas, cardiovasculares, respiratórias e endócrinas, que respondem hoje por até 1 milhão de mortes anuais em todo o mundo, segundo relatório recente da ONU (Organização das Nações Unidas).
Entre as doenças mais comuns associadas a essas condições estão gastroenterites, cólera, hepatite A e outras infecções intestinais, mais frequentes em áreas onde não há infraestrutura adequada de saneamento e gestão de resíduos.
A presença de vetores como moscas, mosquitos e roedores, em áreas de deposição de lixo, onde há também acúmulo de água, também aumenta o risco de transmissão de doenças como dengue, malária, leptospirose e febre tifoide.
A queima de lixo a céu aberto e a presença de poluentes no ar causam irritação nas vias respiratórias e agravam quadros de asma, bronquite e outras condições respiratórias, além de aumentar o risco de doenças cardiovasculares.
"[Os poluentes atmosféricos] reproduzem em pequena escala o que o fumo causa ao pulmão e ao coração. O fumo está reduzindo no mundo, já no caso da poluição do ar, só aumenta o número de expostos", diz o patologista Paulo Saldiva, professor e pesquisador da USP.
Um estudo recente da USP, publicado na revista Environmental Research, mostra que a exposição a longo prazo à poluição atmosférica da cidade de São Paulo está diretamente ligada ao aumento dos riscos cardíacos.
Os pesquisadores analisaram necropsias de 238 pessoas e dados epidemiológicos, além de fatores de risco, como histórico de tabagismo e hipertensão, e concluíram que a fibrose cardíaca, um indicador de doença no coração, está associada ao tempo de exposição às partículas de carbono negro— um indicador de poluição atmosférica.
Segundo Saldiva, o nível de concentração de poluição depende do tempo de exposição. Por exemplo, pessoas que permanecem horas em corredores de tráfego recebem doses maiores de poluentes e, portanto, têm mais riscos de agravos.
Nos últimos anos, tem aumentado a preocupação com os microplásticos. Eles estão por todos os lados. Na água, no ar, no solo, no organismo de animais e dos humanos. Já foram encontrados no sangue, na placenta e em diversos órgãos como coração, fígado, pulmão e cérebro.
Embora ainda haja uma lacuna de estudos científicos que associem os microplásticos, pequenas partículas com dimensões menores do 5 milímetros, a danos diretos à saúde, a literatura científica tem avançado.
Um estudo publicado em março deste ano na revista científica The New England Journal of Medicine demonstrou, pela primeira vez, o risco potencial dos microplásticos ao coração.
O trabalho acompanhou durante 34 meses um total de 257 pessoas submetidas a uma cirurgia para a remoção de placas de gordura em uma artéria do pescoço.
Ao analisar essas placas, os pesquisadores encontraram microplásticos em quase 60% da amostra (150 participantes). A maioria era de polietileno, comum em sacolas e embalagens. Também foram encontradas amostras de PVC.
Nesse grupo, o risco de ataque cardíaco, de AVC (acidente vascular cerebral) ou de morte foi 4,5 vezes maior em relação a quem não tinha microplásticos nas artérias. Isso ocorreu após ajustes de dados para idade, sexo, índice de massa corporal e condições de saúde, como diabetes e colesterol alto.
Ainda que os resultados demonstrem apenas uma associação (não provam uma causalidade), eles marcam um ponto de virada na literatura científica sobre o impacto dos resíduos plásticos na saúde humana, segundo especialistas.
Conclua a leitura desta reportagem clicando na Folha de S. Paulo
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