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Força-tarefa salva casal de tuiuiús dos incêndios no pantanal

04/07/2024

Refugiados em seu ninho, no alto de uma árvore com vista para a vegetação queimada, um casal de tuiuiús, ave-símbolo do pantanal, representa a resistência deste santuário de biodiversidade assolado pelos incêndios.
Monogâmicos, os tuiuiús, espécie da família das cegonhas com cerca de 1,5 metro de altura, raramente abandonam seus ninhos a menos que se sintam ameaçados.
Foi o que aconteceu com um casal de tuiuiús, que vive na região de Corumbá (MS), e no ano passado teve que se afastar do ninho para escapar do fogo. Ao retornar este ano, as aves viram novamente as chamas se aproximando perigosamente da árvore onde nidificaram.
Os incêndios em grande escala costumam ocorrer na região no segundo semestre. Mas este ano as chamas chegaram mais cedo, com 3.451 incêndios identificados desde janeiro, 20 vezes mais do que no mesmo período em 2023.
Desta vez, os tuiuiús se salvaram graças a uma força-tarefa que contou com os esforços do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), ONG que atua na preservação do bioma e que trabalhou na operação junto aos bombeiros e o Grupo de Resgate Técnico Animal Cerrado Pantanal (Gretap-MS).
A missão: criar uma espécie de perímetro de segurança ao redor do ninho feito no topo de uma piúva (ou ipê-roxo), uma das árvores mais altas desse ecossistema.
Os bombeiros limparam a vegetação ao redor para conter a propagação do fogo e resfriaram a área por 48 horas consecutivas, enquanto outras equipes combatiam as chamas. Um helicóptero foi usado para lançar água sobre o local, tomando cuidado para não molhar e destruir o ninho.
O esforço deu certo —os tuiuiús sobreviveram e permaneceram.
"A gente comemora muito essas pequenas vitórias porque são elas que nos dão combustível para fazermos mais. Foi um trabalho de muito esforço, de muita técnica, que está tendo esse bom resultado", explica à AFP o biólogo Sérgio Barreto de Aguiar, responsável técnico do IHP.
De nome científico Jabiru mycteria, os tuiuiús são reconhecidos por suas patas e pescoço pretos, penugem branca e papo vermelho. Alimentam-se de peixes, pequenos moluscos e crustáceos que abundam nas baías do pantanal na época da vazante. Nesta temporada, o ciclo reprodutivo terá início no segundo semestre, a partir de outubro.
"A gente tem um grande cuidado com esse ninho. Passamos aqui para ver se o fogo não voltou, se a área está resfriada, e os bombeiros estão sempre à disposição para, se for preciso, voltarem a resfriá-lo com água", afirma Barreto.
Tanto zelo tem uma explicação: além de ser uma espécie ameaçada, o tuiuiú é um bioindicador, ou seja, atua como um termômetro da qualidade ambiental de seu habitat.
"É uma espécie que sofre bastante neste período [de queimadas]. A gente está vendo muita fumaça, o que acaba causando problemas respiratórios e é importante que a gente entenda que quando temos a presença desses animais bioindicadores, de topo de cadeia, isso nos indica que toda a outra fauna abaixo dele está presente", acrescenta o biólogo.
Porém, nem todas as aves têm a mesma sorte. Perto do ninho dos tuiuiús, um pequeno pica-pau foi encontrado morto sem sinais de queimaduras ou lesões externas. Segundo Barreto, há indícios de que tenha morrido intoxicado pela fumaça das queimadas.
"Esse é o grande problema do incêndio, ele não mata apenas por queimadura, mas também por inalação de fuligem, fumaça, causando problema respiratórios. A gente encontra diversas aves mortas por este motivo", lamenta.

Fonte: Folha de S. Paulo

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