
02/07/2024
As queimadas deste ano no Pantanal preocupam, mas ainda há tempo e condições para evitar danos maiores à principal vitrine da biodiversidade do Brasil. Quem afirma é Walfrido Moraes Tomas, cientista da Embrapa-Pantanal, em Corumbá (MS), um dos maiores especialistas na biodiversidade pantaneira, terra de onças-pintadas e araras-azuis. Tomas é um dos autores do estudo sobre o impacto das queimadas em 2020 na fauna que estimou em 17 milhões o número de vertebrados mortos. Ele chama a atenção da ação humana nos incêndios, também apontada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Segundo Marina, 85% dos focos de fogo no Pantanal neste ano surgiram em áreas privadas.
Qual o impacto até agora do fogo no Pantanal neste ano?
São incêndios muito grandes, mas o Pantanal é imenso. Porém, animais, principalmente os menores, morrem em qualquer incêndio. Por ora, a escala de impacto sobre a fauna nativa é menor do que em 2020. Todo cuidado é pouco e é preciso agir. Não dá para estimar com sobrevoos de avião. Esse é um trabalho para ser feito em solo.
Este ano as condições climáticas favorecem o fogo. Mas qual o peso da ação humana?
Nessa época, mais seca, os incêndios são todos causados por ação humana. A condição atual está muito favorável para o fogo no Pantanal, que ele só vai existir se alguém começar. É só ver que, inclusive, quase a totalidade das áreas incendiadas neste ano está fora das unidades de conservação e das terras indígenas.
E o que se pode dizer da tese do “boi bombeiro”, que voltou a ser mencionada?
A história do boi bombeiro não está correta. Se atearem fogo em situações climáticas críticas, vai queimar com ou sem boi. Há mais focos de fogo onde não tem boi porque são áreas que inundam muito e, por isso, acumulam biomassa vegetal (que seca, se torna inflamável), e não pela ausência de gado. Não é que o boi, ao pisar e pastar, controle incêndios e que a falta dele permita ao fogo se espalhar. Isso é uma invenção que alguns usam para justificar queima injustificável. São as pessoas que começam os incêndios, muitas vezes por práticas de queima de lixo e limpar o campo, e isso tem muito a ver com a erosão da cultura pantaneira.
O que chama de erosão cultural no Pantanal?
O Pantanal é uma grande savana úmida inundável, tem uma história moldada pelo fogo e a água. Mas tudo tem um limite e um momento certo. O Pantanal tem passado por muitas transformações. E não apenas climáticas e ambientais, como o desmatamento. Uma delas é que as pessoas desaprenderam a interpretar a paisagem. A cultura pantaneira tem sido erodida. Como resultado, às vezes, queimam campo no momento errado.
E antes, como era?
Havia mais gente que sabia escolher quando queimar ao observar o solo e a vegetação, avaliar a umidade e saber quando era seguro. Os peões pantaneiros verdadeiros estão se tornando mais escassos. Tudo isso impacta.
Quais outros fatores que provocam impacto?
Há várias outras causas. Há o desmatamento e o assoreamento dos rios. As pessoas continuam a pôr fogo depois de tudo o que aconteceu em 2020. Mesmo, por vezes, sendo prejudicadas por isso. Mas existe uma coisa fundamental, que faz toda a diferença.
O que é?
Educação. O Pantanal, e não apenas ele, precisa de educação, muita educação, muito esforço nesse sentido. É preciso compreender que tudo está ligado e um pequeno ato pode se tornar um grande desastre.
Como ocorre agora?
Sim. Há uma grande sinergia. O Pantanal é filhote da Amazônia, depende da umidade que vem dela para existir. É também cria do Cerrado, é lá que nascem os rios que o formam. Ele sofre com a seca na Amazônia, com o desmatamento e a degradação das nascentes no Cerrado. Há o impacto das mudanças climáticas, que reduzem a chuva e aumentam o calor. E das barragens, que seguram a água que deveria escoar pela planície. É nesse cenário que chega uma pessoa que decide pôr fogo. E o incêndio, um fogo nascido pequeno, se espalha e devasta imensas áreas. No momento, a sinergia entre diversos fatores é ruim. Não podemos mudar o tempo, mas podemos mudar as pessoas.
Fonte: O Globo
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