
30/04/2024
No meio da noite, em uma praia do sul da Califórnia, nos Estados Unidos, um cientista cidadão observa milhares de peixes fazendo sexo.
🐟🐟 "Milhares deles, rebeldes, todos fazendo barulho", anota ele. "Parece uma espécie de Mad Max marinho pós-apocalíptico."
Este ritual único de acasalamento é conhecido como a corrida do peixe-rei-da-califórnia.
Ao contrário da maioria das outras espécies, este pequeno peixe prateado desova em terra, depois de se lançar do oceano para a areia. E eles só desovam durante a lua cheia ou lua nova, porque precisam da maré alta para chegar à praia.
Desde 2002, esses rituais são registrados por "observadores de peixes-reis-da-califórnia" – cientistas cidadãos que se voluntariam para observar os peixes em 50 praias do Estado americano.
Eles encaminham suas observações para a cientista Karen Martin, da Universidade Pepperdine de Malibu, na Califórnia. Ela estuda a espécie há décadas e mais de 5 mil pessoas já colaboraram com o seu projeto.
"Não poderíamos fazer sem eles", ela conta. "Não há outra forma de conseguir este tipo de dados. É realmente notável."
Contar os peixes é quase impossível. Eles evitam inteligentemente as redes e não são atraídos pelas iscas em anzóis
"Os métodos ´normais´ de avaliação da população não funcionam para esta espécie", explica Martin.
Por isso, não existem estatísticas formais da população do peixe-rei-da-califórnia – o que faz com que também não haja uma estimativa do seu estado de conservação.
Mas Martin afirma que, com certeza, a espécie está ameaçada e suas pesquisas indicam que os números caíram significativamente na última década.
🗺️ O peixe-rei-da-califórnia só é encontrado ao longo do litoral do Pacífico, principalmente entre Punta Abreojos, na Baixa Califórnia (México), e Point Conception, no centro da Califórnia (EUA).
O peixe mede cerca de 13 cm de comprimento quando adulto e os cientistas acreditam que sua população tenha diminuído no último século. A erosão das praias, a poluição luminosa e o desenvolvimento das áreas costeiras são as principais ameaças à espécie, além da pesca excessiva e da destruição do seu habitat.
A forma de acasalamento do peixe-rei-da-califórnia é única, para dizer o mínimo.
🧬 As fêmeas nadam o mais que podem e se lançam para fora da água até a areia. Elas agitam suas caudas para cavar um buraco e liberam os ovos. Os machos as seguem e os fertilizam.
Os ovos permanecem enterrados na areia até que a próxima onda seja suficientemente alta para atingi-los, o que normalmente leva cerca de 10 dias. Depois, eles eclodem.
Mas este comportamento representa riscos para o peixe-rei-da-califórnia – e não só por ser uma presa fácil durante a desova na areia.
As praias usadas pelos peixes para a desova estão entre os destinos turísticos mais populares da Califórnia. Elas são limpas quase diariamente com máquinas pesadas, o que frequentemente destrói os ovos.
"Tudo o que as pessoas fazem nessas praias causa impactos ao meio ambiente", segundo Martin.
Coletar dados sobre esta espécie é um desafio. Mas a implementação de regulamentações para sua proteção tem trazido alguns sucessos.
O Departamento de Pesca e Vida Selvagem do Estado criou as primeiras regulamentações de proteção ao peixe-rei-da-califórnia em 1927. Os cientistas haviam observado que o peixe era capturado em enormes quantidades ao sair da água. As pessoas usavam redes feitas de lençóis para pescar em massa.
Foram introduzidas restrições ao uso de equipamentos durante o período de defeso (abril a junho) quando a pesca é proibida. Com isso, os moradores locais só podiam usar as mãos para pescar.
Nos anos 1940, o biólogo marinho Boyd Walker (1917-2001) observou todas as corridas do peixe em La Jolla, na Califórnia, por três anos. Sua dissertação mapeou a faixa ocupada pela espécie, seus hábitos de acasalamento e desenvolveu um método de contagem dos peixes, hoje conhecido como Escala Walker.
É esta escala que os observadores de Martin usam para compilar seus relatórios.
A escala varia de W0, que significa "nenhum peixe ou apenas alguns indivíduos", a W5, que indica "peixes cobrindo toda a praia, em camadas com diversos indivíduos, impossível ver a areia entre os peixes".
Conclua a leitura desta reportagem clicando no g1
Com a chegada do inverno, jacarés mudam comportamento no Parque Chico Mendes
25/06/2026
Expedição encontra traços de cocaína, cafeína e agrotóxicos na nascente do Tietê
25/06/2026
Elefanta Baby é transferida para santuário em MT após ordem da Justiça
25/06/2026
O voo da virada: como o canário símbolo da Seleção superou a extinção
25/06/2026
Copa de 2026 pode ser a mais poluente da história, com 7,8 milhões de toneladas de CO₂
25/06/2026
Guterres propõe 7 passos para enfrentar as “duas crises” globais
25/06/2026
