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Indústria do plástico escondeu limitações da reciclagem e gerou crise ambiental, diz estudo

28/02/2024

A indústria do plástico escondeu informações sobre a real viabilidade da reciclagem como solução para os milhões de toneladas de resíduos plásticos descartados todos os anos, o que garantiu a expansão de seus mercados ao mesmo tempo em que gerou uma crise ambiental.
É isso o que afirma um estudo da ONG norte-americana CCI (Center for Climate Integrity), lançado neste mês, que mobilizou o setor petroquímico (o chamado "Big Oil"), a indústria de transformação plástica e associações de reciclagem nos EUA, assim como no Brasil. Todos são críticos às principais conclusões do relatório, intitulado "A Fraude da Reciclagem de Plástico" e celebrado por ambientalistas.
A Abiplast (Associação Brasileira do Plástico) diz que o estudo tem inconsistências, sem especificá-las.
O estudo traz documentos inéditos da indústria do plástico nos EUA que indicam limites da reciclagem deste tipo de material já apontados por investigações anteriores às quais o CCI faz referência. São relatórios internos, apresentações de conferências do setor e notas de um funcionário do Conselho Americano do Plástico, uma das principais entidades comerciais dos anos 1980 e 1990.
Os documentos do setor citam dificuldades de recuperação do material descartado e a baixa demanda por resina plástica reciclável, por causa da degradação do material frente às exigências de pureza e de qualidade estabelecidas para muitas aplicações.
Eles indicam também que a incineração de resíduos plásticos para a produção de energia era considerada um caminho mais lógico, ainda que ecologicamente controverso, e que, diante do aumento da consciência ambiental e de iniciativas regulatórias, a reciclagem precisava de investimento do setor para evitar o surgimento de leis mais restritivas ao material.
Uma dessas iniciativas foi a criação, pela Sociedade da Indústria Plástica dos EUA, em 1988, de códigos para diferenciar algumas das várias composições de resina plástica. São números de 1 a 7 envoltos no símbolo da reciclagem —um triângulo formado por três setas no sentido horário.
Pareceres contrários argumentam que a iconografia sugeria que aquele material era reciclado ou seria reciclado, quando não havia esse compromisso nem a viabilidade econômica para a implementação da reciclagem de toda a variedade de plásticos indicados junto ao símbolo das setas.
"Essas fontes, juntas, são evidências convincentes de que essa indústria tinha consciência de que a reciclagem não era uma solução viável para o problema da poluição plástica", diz à Folha Davis Allen, investigador do CCI e principal autor do estudo.
"Sabia-se que a reciclagem do plástico não era tecnicamente nem economicamente viável diante a escala do problema. E, ao promover essa falsa promessa, a indústria enganou consumidores e legisladores para proteger e expandir seus mercados e, ao mesmo tempo, conter as iniciativas regulatórias, em especial aquelas contra a disseminação de plásticos de uso único."
Após mais de 30 anos de promoção da reciclagem, estima-se que apenas 9% do plástico descartado globalmente sejam, de fato, reciclados. No Brasil, estudo da ONG WWF, baseado em dados do Banco Mundial, afirma que, em 2019, apenas 1,3% foi reciclado.
Já o Índice de Reciclagem Mecânica Pós-Consumo, iniciativa da Abiplast, indica que a reciclagem foi de 25,6% em 2022.
"Durante anos, diversas iniciativas e políticas públicas foram meticulosamente elaboradas em prol da reciclagem de plástico, sendo essencial reconhecer esse esforço", afirma, em nota, o presidente da Abiplast, Paulo Teixeira, que acusa o relatório do CCI de "inconsistências", sem detalhá-las.
"Empresas de renome, como Coca-Cola e Unilever, estabeleceram metas específicas em relação ao tema, evidenciando que qualquer empreendimento ambiental não deve ser subestimado ou desqualificado", avalia ele.
Também procurada, a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), que reúne as petroquímicas, diz, em nota, que a gestão do plástico é um tema de interesse da indústria química e que entende que a poluição plástica está ligada à má gestão de resíduos, como o descarte incorreto.
Segundo o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, as empresas da entidade vêm investindo em produtos feitos a partir de fontes renováveis, resinas termoplásticas produzidas a partir de plástico reciclado, pesquisas de processos de reciclagem química, geração de energia a partir de fontes renováveis e metodologias para auxiliar clientes a desenvolverem embalagens mais sustentáveis.
Leve e barato, versátil e durável, o plástico é o material dominante na economia contemporânea. Fabricado a partir de combustíveis fósseis, o plástico teve um salto de produção de 1,5 milhão de toneladas em 1950 para 460 milhões de toneladas em 2019. Projeções estimam que esse montante deve pelo menos dobrar até 2060.

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