
09/01/2024
Símbolo do alargamento de praia no Brasil, Santa Catarina concentra um terço dos projetos do tipo no país e levou areia até para orla que não foi alvo de obra. O aporte excedente "engoliu" parte de um píer do local e virou alvo de críticas de quem é contra esse tipo de intervenção no litoral.
Em Florianópolis, a praia de Canajurê ampliou sua faixa com areia que veio de Canasvieiras, onde o município realizou um alargamento em 2020.
"Não está inviabilizando o uso do píer, mas pode inviabilizar se voltar a aumentar. Não se sabe o que vai acontecer. Antes, já havia acontecido de aumentar e diminuir o volume de areia. Mas ninguém lembra de ter chegado a esse ponto", disse Luiz Fernando Beltrão, comodoro do Iate Clube Santa Catarina.
O secretário municipal de Infraestrutura, Rafael Hane, afirma que a transferência de areia de uma praia para outra já era prevista, mas não no volume que ocorreu. Qualquer alteração na orla muda o balanço sedimentar, como é chamado a movimentação de areia ao longo da costa a partir das ondas e correntes marítimas.
"O projeto já previa a migração, mas toda modelagem matemática tem que ser refinada com o que acontece na prática. A gente não podia pensar no controle da migração [de sedimentos], porque poderia ocorrer mais erosão. Agora vamos fazer o monitoramento, para saber quais ações fazer com a sobra de areia e reduzir a velocidade de transferência da areia", disse.
Santa Catarina tem 8 dos 23 projetos de intervenção na orla identificados pela Folha realizados desde 2018 ou previstos para ocorrer. O estado iniciou estudos para ampliação da orla no final da década de 1990. Florianópolis também realizou aterro na praia dos Ingleses e planeja outro em Jurerê, também vizinha a Canajurê.
O oceanógrafo Ricardo Haponiuk, coordenador da Anama (Associação Nacional dos Órgãos Municipais de Meio Ambiente), destaca uma corrida das cidades do litoral norte do estado para mitigar efeitos possivelmente causados pelos vizinhos.
"Itajaí fez os molhes [espécie de muro dentro da água] para fixar a desembocadura do rio Itajaí-açu. Esse molhe começou a causar erosão em Navegantes. Navegantes então mexeu na conformação do molhe para tentar segurar um pouco mais de areia. Mas tem praia no norte de Navegantes que não tem mais areia e ali já tem um projeto de engorda", disse ele.
"Se for subindo, tem Balneário Piçarras, que já fez espigões, engorda e agora está licenciando um novo alargamento. Barra Velha, vizinha a Piçarras, também praticamente não tem praia. E, mais para cima, Itapoá, que tem também projeto de engorda."
O "boom" de obras no estado dividiu até pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Uma nota técnica do Programa Ecoando Sustentabilidade da UFSC critica a forma com que o governo catarinense licencia os alargamentos de praia. Projetos com engorda de até 500 mil m³ são considerados de médio porte, o que os dispensa da necessidade de estudos de impacto ambiental.
Todos os executados em Florianópolis se mantiveram próximo deste limite. O alargamento da praia dos Ingleses, no início de 2023, por exemplo, usou 499,6 mil m³ de areia. Deles foram exigidos apenas estudos ambientais simplificados, que, segundo o documento, "têm abrangência limitada no escopo e somente verifica a área de influência direta do empreendimento".
Em nota, o Instituto do Meio Ambiente de SC afirmou que avalia o impacto ao longo da linha de costa nos licenciamentos. "O IMA vem buscando implementar medidas para fazer a gestão integrada por setores praias na mesma unidade fisiográfica, de modo a avaliar os impactos de maneira mais ampla."
O oceanógrafo Antônio Klein, também da UFSC, defende a realização das obras com critérios técnicos. "Felizmente, na maior parte do país, estamos deixando de usar rochas e concreto (primeira atitude) e fazendo alimentação de praia, tentando reproduzir o ambiente."
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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