
04/01/2024
O jornalista Ernesto Paglia, 64, passeava pelo pequeno vilarejo de Qaanaaq, na Groenlândia, quando ouviu barulhos muito característicos do esporte favorito dos brasileiros. Ficou intrigado, porque a temperatura no local poderia chegar a -35°C na primavera, como ele mesmo sentiu na sua primeira ida ao local, em 1995.
Ao ver garotos de 10 a 14 anos jogando futebol no gelo, descobriu, junto com o cinegrafista Marco Antônio Gonçalves, que a popularidade do esporte no território dinamarquês vinha do ano anterior, com a conquista do tetracampeonato mundial do Brasil na Copa do Mundo.
"Quando colocamos a câmera para filmar, eles perguntavam de onde éramos. Quando dissemos ‘somos do Brasil’, começaram a gritar ‘Bebeto’, ‘Romário’ e até ‘Maradona’", lembra o jornalista.
O futebol abaixo de 0°C não foi a única coisa que chamou a atenção dele, que percorreu 400 km sobre o gelo para acompanhar uma caçada de inuítes, povo que vive na região há 1.200 anos e cuja cultura está ameaçada pela mudança climática.
A visita de 1995 foi seguida por outra, em 2007, na qual não seria possível repetir a viagem, por causa do derretimento do gelo no Ártico. No ano passado, quando Ernesto voltou com a mesma equipe ao local para uma terceira reportagem, a região teria seu verão —entre julho e setembro— mais quente já registrado.
Os registros dessas mudanças e os sinais que elas dão para o mundo chegam nesta quinta-feira (4) à plataforma Globoplay, na estreia da série documental "3x Ártico – O Alerta do Gelo".
Enquanto a primeira reportagem tinha cara de aventura, para mostrar como vive um grupo de pessoas cercado por gelo o ano todo, as outras duas se concentraram na crise causada pelo aquecimento global, evidente na região por causa da aceleração no degelo e no aumento do degelo acelerado
"Em 1995 já havia consciência sobre a crise climática, mas era menos disseminada do que hoje. Havíamos vivido a Rio-92 e me lembro de certa exaustão da opinião pública com meio ambiente, falava-se muito nos ecochatos."
Na época, Paglia, acompanhado pelo cinegrafista Gonçalves e o biólogo e guia canadense Jim Allan, registrou a primeira caçada dos inuítes na primavera, após quatro meses no escuro durante o inverno da Groenlândia.
Com trenós puxados por cães, o grupo viajou por 11 dias sobre o mar congelado, com grandes riscos ao menor sinal de brisa abaixo de 0°C. Já em abril de 2023, a viagem durou apenas um dia, e percorreu 60 km, quase um quarto da distância coberta em 1995, porque já não havia distância entre o local de partida, na região de Qaanaaq, e a orla marítima.
Essa mudança representa menos gelo marinho, mais chuva e temperaturas mais quentes na superfície marítima do Ático, já que a água absorve a radiação solar e armazena essa energia, em vez de refleti-la, como faz a camada de gelo.
"Enquanto o mundo discute nas COPs (conferências do clima da ONU), como a de Dubai, as formas de limitar o aquecimento médio de 2°C do planeta, lá os inuítes já vivem um aumento médio de 4°C a 5°C por conta desse fenômeno."
É por isso que, para o jornalista, os inuítes são sentinelas das mudanças climáticas, avisando o que vem pela frente.
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