UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
Berçários submarinos ajudam a restaurar corais no litoral brasileiro

08/09/2022

Jangadas são pequenos barcos de madeira usados ​​por pescadores artesanais no nordeste do Brasil. Carlos dos Santos, orgulhoso neto jangadeiro e filho de pescadores, passou boa parte da vida sobre as tradicionais velas triangulares brancas para pescar atrás dos recifes de Porto de Galinhas, no litoral pernambucano. Hoje ele se dedica a encontrar o refúgio ideal para os corais mais vulneráveis.
Ele conhece aquele mar de água turquesa como a palma da sua mão e agora ajuda a encontrar os recantos mais seguros no fundo do mar onde serão instalados os ´viveiros´ para recuperar os corais. São estruturas submersas sobre as quais são ´plantados´ pedaços deste delicado animal marinho, para lhe dar o empurrãozinho necessário para que cresça sozinho; um delicado trabalho manual pioneiro no Brasil que busca restaurar um ecossistema especialmente sensível ao aquecimento global.
— O que fazemos é recolher fragmentos de coral caídos no fundo do mar, cultivá-los em mesas de cultivo e devolvê-los à natureza — resume Rudã Fernandes, diretor da Biofábricas, uma pequena ´start up´ que funciona como pilar do projeto ´Coralizar ´.
Pedaços do animal marinho são ´plantados´ em estruturas submersas
O aquecimento da água, a grande quantidade de turistas mergulhando ou os remos dos barcos acabam quebrando os delicados pedaços de coral, que geralmente acabam no fundo do mar, muitas vezes cobertos de areia. Eles não estão necessariamente mortos, mas precisam de ajuda.
— São como as folhas de uma planta suculenta. Se estiver solta morre, mas se a planta crescer no chão — exemplifica Santos.
Os corais não são plantas, mas a metáfora chega bem perto. O processo de ´ressurreição´ consiste em colocar os pedaços desse animal (que são limpos, pesados ​​e cortados em pedaços menores para multiplicá-los) em mesas de PVC. Cada pedacinho é fixado com uma cola inócua em pequenas estruturas feitas com impressoras 3D, que são feitas sob medida para cada espécie. É trabalhoso e exige muita paciência. A espécie Mussimila harttii (conhecida por seus lobos cerebrais em forma) é endêmica do Brasil e corre o risco de extinção, crescendo apenas um centímetro por ano. Eles também trabalham com a Millepora alcicornis (também chamada de coral de fogo) que cresce mais rápido, facilitando os resultados na lavoura. Quando crescem o suficiente, eles se mudam para o ambiente natural.
Porto de Galinhas é um importante destino turístico do litoral do estado de Pernambuco. As praias de areia branca adornadas por intermináveis ​​fileiras de coqueiros deram lugar a complexos hoteleiros pelos quais mais de 800 mil turistas desfilaram no ano passado. Este ano, a expectativa é ultrapassar um milhão. A pressão turística é apenas um dos fatores que ameaçam os corais: o aquecimento gradual da água intensificou os eventos de branqueamento, quando os corais perdem suas cores características, deixando-os tristes e morrendo.
— O que dá cor aos corais são as algas que vivem dentro deles. Quando a temperatura da água sobe, essa relação simbiótica deixa de ser tão amistosa e o coral expele as algas, por isso fica branco. O que vemos é seu esqueleto, embora ele não esteja morto. Pode ficar assim por um tempo, mas se o fenômeno durar muito tempo, o animal perderá toda a nutrição e morrerá de fome — explica João Lucas Feitosa, professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco. (UFPE) e coordenadora do projeto Coralizar.
Com as mudanças climáticas, os eventos de branqueamento, antes muito raros, estão se tornando mais frequentes e intensos. No litoral brasileiro, a última vez que isso aconteceu foi no início da pandemia de Covid-19, o que impediu a realização de trabalhos paliativos urgentes. Foi o pior evento de branqueamento em 35 anos e, segundo pesquisadores locais, algumas espécies do litoral pernambucano apresentaram mais de 70% de morte ou doença em suas populações. Se as previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) forem confirmadas e a temperatura dos oceanos subir 1,5 graus antes de 2050, até 90% dos corais do mundo perderão a cor.
Em outras partes do mundo, o branqueamento é quase uma sentença de morte, porque os corais são mais dependentes de seus amigos, as algas. Os da costa nordeste do Brasil são um pouco mais resistentes porque conseguem se alimentar de outros micro-animais, mas têm outros pontos fracos: são muito próximos da costa e muito rasos (você pode praticamente chegar aos recifes a pé), o que os deixa mais expostos ao impacto humano e movimentos de areia e lama da foz dos rios. Além disso, no caso dos corais brasileiros, ainda não foi medido o impacto de um derramamento de óleo que manchou lentamente a costa entre agosto de 2019 e março de 2020. Os primeiros estudos já detectaram a presença de petróleo bruto em peixes dois anos depois.
Feitosa destaca que, diante de tantos ataques, restaurar os recifes de coral é tudo menos um capricho estético.
— São hiper mega ultra importantes — enfatiza, explicando que além de formar uma barreira natural que protege a costa, os corais são como os engenheiros que constroem a casa para o resto da fauna que ali vive. Cerca de 27% da biodiversidade marinha do mundo ocorre nesses ecossistemas. Peixes comerciais se reproduzem aqui e cerca de 30 milhões de empregos de pesca em todo o mundo dependem dos recifes.
Nas praias de Porto de Galinhas, o desafio agora é ampliar o projeto de restauração para que não seja apenas uma gota no oceano. Hoje os viveiros abrigam mais de 1,4 mil fragmentos de corais em vários estágios de crescimento e espera-se chegar a 6 mil no restante do ano. A ideia é sistematizar os processos e desenvolver ferramentas de biotecnologia para que possam ser replicadas em outros lugares.
— Agora estamos desenvolvendo os mecanismos para que o processo fique mais próximo de uma indústria. É um trabalho lento, trabalhamos com comunidades tradicionais, mas queremos dar um ar industrial, de indústria azul, claro — diz Fernandes.
O projeto conta com o apoio da ONG WWF-Brasil e financiamento da empresa Neoenergía, e atualmente emprega 16 pessoas. A equipe inclui biólogos e engenheiros, mas também ´jangadeiros´ e aposentados da área.
Fortalecer o vínculo com os moradores de Porto de Galinhas é uma das obsessões de Fernandes, e ele admite que não é totalmente fácil. Quando a restauração dos corais começou em 2017, não foram poucos os que olharam de soslaio para o trabalho. Os empresários hoteleiros temiam que fosse o fim das excursões turísticas aos recifes. Mas se anos atrás era comum levar um pedaço de coral como lembrança, agora a onda do turismo sustentável e da experiência faz com que os visitantes se disponham a pagar uma taxa para ´adotar´ um coral ou mergulhar para ver em primeira mão os viveiros subaquáticos.
— As pessoas precisam ver que os corais as ajudam a manter sua qualidade de vida. Não quero que ninguém ajude a preservá-los porque é lindo, quero que sintam na pele que os ajudam a ter uma vida melhor — diz Fernandes.
Santos, que desde o início foi entusiasmado com a sua jangada, acredita que as dúvidas vão-se dissipando e que até alguns dos seus colegas pescadores, que costumavam rir-se dele pelo seu espírito ambientalista, entendem que colocar com cuidado mesas debaixo de água é não uma excentricidade, mas um investimento no futuro.
— Se conseguirmos convencer a comunidade de que isso é frágil e precisa de cuidados, pode voltar a ser tão bonito quanto era na nossa infância — confia.

Fonte: O Globo

Novidades

Com espaços fluidos, escola integra a natureza à aprendizagem

09/07/2026

Na era dos sons das notificações e das respostas rápidas ao alcance das mãos, proibir celulares nas ...

Novo estudo indica por que a Antártica congelou milhões de anos antes do Ártico

09/07/2026

A Antártica Oriental abriga o maior manto de gelo da Terra, com água suficiente para elevar o nível ...

Tinta refletora reduz o calor em moradias vulneráveis na África

09/07/2026

Uma pergunta simples deu origem a uma solução inédita: o uso de uma tinta para enfrentar o calor ext...

Europa pode enfrentar semanas mais mortais com nova onda de calor, alerta OMS

09/07/2026

A OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou nesta terça-feira (7) que a Europa poderá enfrentar "se...