
06/09/2022
Os técnicos estavam no telhado do SexMotel, instalando os painéis fotovoltaicos, e o administrador, Silvio Neves de Almeida, explicava. "A energia solar é uma questão de economia. Aqui se gasta muito com ar-condicionado, com máquina de lavar roupa para deixar os lençóis bem limpos. Nisso não tinha como mexer. Mas precisava baixar a conta de luz, que fica entre R$ 8.000 e R$ 9.000 por mês."
Em Boa Vista, capital de Roraima, tem sido assim. Seja em motéis, hotéis, supermercados, restaurantes, órgão públicos e residências, os sistemas solares estão tomando conta dos telhados seguindo o raciocínio da geração distribuída. Empresas e famílias instalam os sistemas, compartilham a energia gerada com a distribuidora e abatem a diferença entre o seu consumo e a energia repassada, para amenizar os gastos.
O uso da energia solar avança no mundo, mas seu crescimento em Roraima tem um significado particular. Nesse estado, 79% da energia vêm de térmicas movidas a combustíveis fósseis, e as fontes limpas respondem por 21%.
Essa proporção está na contramão do resto do Brasil, onde 80% da energia vêm de fontes limpas (hídrica, eólica, solar e biomassa). Térmicas com diesel, gás e carvão são 6% da matriz nacional.
"Cada sistema solar instalado pelo consumidor em Roraima é um custo evitado na compra da energia gerada por fontes fósseis, como diesel", diz Conceição Escobar, presidente da Abee-RR (Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas de Roraima), que participa dos movimentos em favor de energias sustentáveis no estado.
Esse descolamento em relação ao resto do país ocorre porque Roraima não tem ligação elétrica com as demais partes do Brasil. Boa Vista é a única capital desconectada.
Existem inúmeras versões sobre a dificuldade de construir uma linha de transmissão conectando o sul do estado ao sistema nacional. Por quase duas décadas, o abastecimento foi feito com energia da Venezuela, pela linha de transmissão de Guri-Macágua, ao norte.
No entanto, o fornecimento foi suspenso em março de 2019, quando Roraima passou a depender apenas de térmicas. A geração é feita com diesel e, mais recentemente, gás. Os altos custos financeiros e ambientais são compartilhados com todos os brasileiros.
Em 1973, foi criada, justamente com essa função, a CCC (Conta de Consumo de Combustível). Ela angaria contribuições de todos os brasileiros para o pagamento. A cobrança é feita na conta de luz, principalmente dos moradores de Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Em outras palavras, os brasileiros subsidiam a energia de Roraima e demais estados com áreas isoladas (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Pernambuco e Rondônia).
O sistema elétrico nacional avançou, o mundo migra para energias limpas, mas a conta de combustível do sistema isolado no Brasil segue alta. Neste ano, são R$ 12 bilhões previstos, o equivalente a 37% de todos os subsídios repassados à conta de luz.
A maior fatia vai para o estado do Amazonas, 76%. Roraima é o segundo na lista, com previsão de receber 10% no ano. Em julho, porém, 15% dos recursos da CCC foram para o estado.
Justamente por causa do subsídio, a tarifa de energia de Roraima está entre as quatro mais baratas do Brasil, numa comparação com os 26 estados e o Distrito Federal. No entanto, o gasto dos moradores com energia é pesado, por questões locais.
"O ar-condicionado é o principal problema, porque precisa ficar ligado praticamente o tempo todo", explica Norry Rabelo, sócio da Donzol, uma das mais antigas empresas de instalação de usinas solares. A conta de luz de uma casa de classe média pode oscilar de R$ 800 a R$ 1.000, por causa da refrigeração.
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