
25/08/2022
Há décadas os cientistas buscam uma possibilidade tentadora de aumentar a oferta de alimentos e aliviar a fome dos mais pobres do mundo melhorando a fotossíntese, o processo biológico das plantas que sustenta quase toda a vida na Terra.
Agora, os pesquisadores dizem que usaram modificações genéticas para melhorar a eficiência da fotossíntese e aumentaram significativamente a produtividade de uma cultura alimentar, a soja. Isso dá uma ideia do potencial desses métodos para um dia colocar mais comida nas mesas, enquanto as mudanças climáticas e outras ameaças tornam mais difícil alimentar as populações vulneráveis do mundo.
Os cientistas testaram suas modificações genéticas em plantas de soja cultivadas em um único local durante apenas duas safras. Eles reconhecem que há necessidade de mais testes para ver se os resultados se repetem em ambientes e condições climáticas diversos. Seus métodos também terão que ser aprovados pelos reguladores do governo antes que as culturas transformadas dessa maneira cheguem aos campos agrícolas.
E a soja –grande parte da qual é cultivada para alimentar gado, e não seres humanos– é apenas o começo. Em longo prazo, os pesquisadores esperam aumentar a produção de alimentos básicos como arroz, feijão e mandioca.
Mas, como o mundo precisará ampliar muito a produção de alimentos para atender à demanda nas próximas décadas, as descobertas sugerem que esse ajuste genético é promissor para atender a essas necessidades, disse Amanda P. de Souza, cientista agrícola da Universidade de Illinois Urbana-Champaign e principal autora de um novo estudo que descreve os resultados, publicado na quinta-feira (18) na revista Science.
"Há um longo caminho até chegarmos lá", disse Souza. Mas "esta é a hora" de trabalhar em direção ao maior número possível de novas soluções, afirmou.
A capacidade de a humanidade se alimentar está sob pressão, pois as sociedades usam a terra e os recursos hídricos de maneiras insustentáveis. As mudanças climáticas causadas pelo homem ameaçam exacerbar o problema, com o aumento das secas e das tempestades causando mais interrupções no abastecimento de alimentos. A produção de alimentos é um dos principais fatores do aquecimento global, inclusive por meio do desmatamento de terras florestais para cultivos e pastagens.
Sem grandes mudanças na agricultura, as metas dos governos para mitigar as mudanças climáticas correm risco, alertam os cientistas. No entanto, lidar com a desnutrição e a fome em curto prazo pode exigir a utilização de mais terras e outros recursos, o que poderá acentuar o aquecimento.
É por isso que os avanços científicos que podem nos ajudar a produzir mais alimentos sem usar mais terra, seja melhorando a fotossíntese ou de outra forma, são tão promissores.
"A civilização humana está num ponto em que temos de obter muito mais com menos", disse Daniel Nepstad, diretor executivo do grupo de pesquisas Earth Innovation Institute.
A nova pesquisa em Illinois se concentra num mecanismo das plantas que as protege dos danos causados pelo sol. Quando as plantas estão sob luz solar intensa, elas geralmente recebem mais energia luminosa do que podem usar na fotossíntese. Esse mecanismo não fotoquímico as ajuda a liberar o excesso de energia inofensivamente, como calor. Mas depois que a planta é sombreada novamente ele não para muito rapidamente, o que significa que a planta desperdiça tempo e energia preciosos que poderiam ser usados para produzir carboidratos.
As transformações genéticas dos pesquisadores ajudam as plantas a se ajustarem mais rapidamente à sombra. Em plantas multicamadas como arroz, trigo, milho e soja, essa agilidade extra poderia teoricamente aumentar a fotossíntese nas camadas intermediárias de folhas, que estão constantemente tremulando entre a luz do sol e a sombra durante o dia.
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