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Cientistas apontam caminhos para restauração de savanas

18/08/2022

Savana não é floresta degradada. E não se reconstrói savana plantando árvores. Essas afirmações, que têm sido feitas há tempos pelos principais pesquisadores do tema, foram reiteradas em edição especial da revista Science publicada no início deste mês. O assunto tornou-se ainda mais relevante, uma vez que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o período entre 2021 e 2030 como a “Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas”.
Porém, alguns projetos com esse objetivo desconsideram as especificidades de biomas complexos como o das savanas e tentam fazer do plantio indiscriminado de árvores uma espécie de remédio para todos os males.
“Existem muitas florestas degradadas no mundo. Mas esse conceito não se aplica às savanas. E a expressão ‘savanização’, quando utilizada, por exemplo, em referência a áreas desflorestadas da Amazônia, torna-se um termo indevido, que atrapalha ao invés de ajudar. Porque, ao contrário das florestas degradadas, as savanas são biomas muito antigos, complexos e ricos em biodiversidade”, diz a ecóloga Alessandra Fidelis, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coautora do artigo.
“Estamos na década da restauração e a preservação e restauração dos ecossistemas de tipo savânico é urgente. Porém, como restaurá-los? O plantio de árvores não é a solução. Tem-se a impressão de que esses ambientes são recentes e simples. Porém, as savanas tropicais, por exemplo, existem há milhões de anos. E possuem uma alta complexidade, tanto em seu componente aéreo, formado pelo estrato herbáceo contínuo, rico em espécies de gramíneas e ervas, e por arbustos e árvores esparsas, quanto, principalmente, pela grande diversidade funcional subterrânea, formada pelas raízes e órgãos subterrâneos de reserva. Esses órgãos são os que dão resiliência ao sistema, pois possuem reservas e também armazenam as gemas, que se transformam em novos ramos depois que, por exemplo, a área pega fogo. Não sabemos ainda como restaurar isso”, acrescenta Fidelis.
A pesquisadora informa que a gramínea C4, que participa do estrato herbáceo, surgiu há 25 milhões de anos. E que as savanas se espalharam por vastas áreas do planeta há 10 milhões de anos. “A maior parte das espécies que compõem as savanas foi selecionada e evoluiu por meio de distúrbios, como fogo e herbivoria. Isso não é algo que se possa reconstruir com um estalar de dedos. Se essa vegetação se queima, por exemplo, ela rapidamente volta a brotar. Mas, se os órgãos subterrâneos e as raízes são arrancados por máquinas agrícolas, não há rebrota possível. Há savanas que foram devastadas há mais de um século e até agora não se recompuseram”, afirma.
Essa consideração é especialmente importante no Brasil, porque o Cerrado, que constitui a savana mais biodiversa do mundo, está desaparecendo a cada dia, sob a pressão da agricultura de larga escala. Sua sobrevivência é ainda mais precária do que a da floresta amazônica.
Fidelis conta que as formações campestres e savânicas, que o artigo da Science chama genericamente de “campos primários” (old-growth grasslands), cobrem nada menos do que 40% da superfície terrestre. São ecossistemas que formam paisagens abertas, compostas principalmente por gramíneas, ervas, arbustos e árvores de pequeno ou médio porte. Elas se espalham por 27% do território brasileiro e predominam em quatro dos seis biomas existentes no país: o Cerrado, a Caatinga, o Pampa e o Pantanal. Mas também aparecem nos outros dois biomas: nas campinaranas, da Amazônia, e nos campos de cima da serra, da Mata Atlântica.
Com sua rica biodiversidade, esses campos e savanas prestam “serviços ecológicos” diretos a mais de 1 bilhão de habitantes do planeta. Mas, no Brasil, sua importância é ainda maior, porque o Cerrado é a única savana do mundo dotada de rios perenes e o berço de alguns dos mais importantes rios do país – o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São Francisco, o Parnaíba, o Gurupi, o Jequitinhonha, o Paraná e o Paraguai, dentre outros.

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