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Salvos pelos porcos: espécie invasora ajudou a preservar crocodilos da Austrália

18/08/2022

A cena se repetiu inúmeras vezes nos pântanos e charcos do norte da Austrália: uma família de porcos ferais desceu até a beira da água para beber. Justamente quando os porcos estão mais vulneráveis, a maior espécie de crocodilo do mundo explode de sua camuflagem na água, fazendo os leitões voarem numa feroz exibição de dentes e poder. Até um porco adulto, que pode pesar 150 quilos, não tem chance.
"Os crocodilos comem o que for mais fácil, e os porcos ferais [que voltaram a viver soltos na natureza] são do tamanho perfeito", disse Mariana Campbell, pesquisadora da Universidade Charles Darwin, na Austrália, que estuda crocodilos de água salgada no norte do país. "Eles são caçadores bem preguiçosos. Se você é um crocodilo, o que é mais fácil? Você fica perto da margem e espera algumas horas por um porco? Ou vai caçar um tubarão, animal que pode nadar cinco vezes mais rápido que você?"
Frank Mazzotti, especialista em crocodilos e jacarés da Universidade da Flórida, concordou.
"Um porco descendo à beira da água é como tocar a campainha do jantar", disse ele.
Alguns cientistas esperam que os encontros entre os crocodilos e os suínos sejam o primeiro sinal de que o porco feral, espécie invasora que causou grandes danos ao terreno natural da Austrália, finalmente encontrou seu par. Os casos também podem ajudar a explicar por que os crocodilos estão indo tão bem, de acordo com um estudo recente que Campbell e outros pesquisadores publicaram na revista Biology Letters.
O crocodilo de água salgada, ou estuarino, vive há milhões de anos na Austrália. O porco selvagem chegou à ilha com os primeiros colonos europeus, no final do século 18. O primeiro é o maior predador da Austrália, que esteve perto da extinção no início dos anos 1970. O segundo se espalhou por quase 40% da massa terrestre da Austrália, e estimativas conservadoras sugerem que pode haver 24 milhões deles no país. Os cientistas culpam os porcos ferais e outras espécies invasoras pela perda generalizada de habitat e pelo fato de a Austrália ter a maior taxa de extinção de mamíferos do mundo.
Por mais divergentes que seus caminhos evolutivos possam parecer, a interação entre o crocodilo de água salgada e o porco feral, entre predador e praga, pode estar reescrevendo a complexa história do que acontece quando espécies não nativas dominam um ecossistema. Qualquer que seja a destruição ecológica causada por espécies invasoras, a relação entre crocodilos famintos e porcos vorazes na Austrália salienta as inesperadas consequências provocadas na natureza por espécies invasoras.
Surpresas semelhantes estão sendo observadas na Flórida e em outros lugares dos Estados Unidos, onde conservacionistas e autoridades da vida silvestre devem levar em conta espécies invasoras em suas tentativas de preservar a fauna local.
Para entender se os porcos estavam ajudando a restaurar a população de crocodilos australianos, Campbell e seus colegas estudaram os isótopos de carbono e nitrogênio retirados nos últimos anos de amostras de ossos de crocodilos que habitam o porto de Darwin e o Parque Nacional de Kakadu. Então as compararam com amostras de museus que foram retiradas de todo o Território Setentrional da Austrália entre o final da década de 1960 e meados da década de 1980.
"Os ossos retêm uma assinatura que permanece ao longo da vida do animal. Se você quiser examinar a dieta de um animal em curto prazo, você estuda o sangue e o plasma", disse Campbell. "Se quiser algo um pouco mais antigo, analisa o colágeno ou a pele. Em longo prazo, você examina os ossos."

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