
02/08/2022
Trinta anos atrás, um plano audacioso foi elaborado para espalhar dúvidas e convencer a população de que as mudanças climáticas não eram um problema. Uma reunião pouco conhecida — entre os responsáveis por algumas das maiores indústrias dos Estados Unidos e um gênio das relações públicas — estabeleceu uma estratégia que durou anos, com sucesso devastador. Suas consequências perduram até hoje.
Em uma manhã de outono de 1992, E. Bruce Harrison — amplamente reconhecido como o pai das relações públicas ambientais — fez uma apresentação como só ele conseguiria fazer diante de uma sala repleta de líderes industriais americanos.
Estava em jogo um contrato de meio milhão de dólares por ano — cerca de R$ 5,5 milhões hoje.
O cliente em potencial era a Coalizão Global do Clima (GCC, na sigla em inglês), que representava as indústrias do petróleo, carvão, automóveis, serviços, aço e ferrovias. A GCC procurava um parceiro de comunicação que mudasse a narrativa sobre as mudanças climáticas.
Dois membros da equipe de Harrison presentes naquele dia — Don Rheem e Terry Yosie — contam agora suas histórias pela primeira vez.
"Todos queriam a conta da Coalizão Global do Clima", afirma Rheem.
"E lá estava eu, em meio às discussões".
A GCC havia sido formada apenas três anos antes, como um fórum para que seus membros trocassem informações e fizessem lobby junto aos legisladores contra as ações que pretendiam limitar as emissões de combustíveis fósseis.
Na época, os cientistas avançavam rapidamente para compreender as mudanças climáticas, e sua importância como questão política era crescente. Mas a Coalizão via poucos motivos para se preocupar nos primeiros anos.
O então presidente americano George H. W. Bush vinha da indústria do petróleo e, como um importante lobista declarou à BBC em 1990, sua mensagem sobre o clima era a mensagem da GCC.
Não haveria redução obrigatória do consumo de combustíveis fósseis.
Mas, em 1992, tudo mudou. Em junho, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92, como ficou conhecida) criou uma estrutura para a tomada de ações sobre o clima. E, em novembro, a eleição presidencial americana levou o ambientalista Al Gore para a Casa Branca, como vice-presidente. Estava claro que o novo governo tentaria regulamentar os combustíveis fósseis.
A Coalizão reconheceu que precisava da ajuda de uma estratégia de comunicação e anunciou que pretendia contratar um profissional de relações públicas (área conhecida como RP).
Poucas pessoas fora do setor de RP talvez tivessem ouvido falar de E. Bruce Harrison ou da companhia que levava seu nome desde 1973. Mas ele tinha um vasto currículo de campanhas para alguns dos maiores poluidores dos Estados Unidos.
Havia trabalhado para a indústria química, desacreditando as pesquisas sobre a toxicidade de pesticidas; para a indústria do tabaco; e havia dirigido, recentemente, uma campanha contra normas de emissões mais restritas para os grandes fabricantes de automóveis. A empresa estabelecida por Harrison era considerada uma das melhores do setor.
Harrison morreu em 2021, mas a historiadora de mídia Melissa Aronczyk conseguiu entrevistá-lo em vida. Ela afirma que ele era um eixo estratégico para seus clientes, garantindo que todos estivessem conectados.
"Ele era um mestre no que fazia", diz ela.
Antes da sua apresentação em 1992, Harrison havia reunido uma equipe de profissionais de RP experientes e outros quase totalmente novatos.
Entre eles estava Don Rheem, que não tinha credenciais na indústria. Ele havia estudado ecologia antes de se tornar jornalista ambiental.
Um encontro casual com Harrison — que deve ter observado o valor estratégico de agregar as conexões ambientais e jornalísticas de Rheem à sua equipe — levou à proposta de trabalho para o projeto da GCC.
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