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Descoberto o mecanismo que pode provocar o colapso da grande circulação do Atlântico

28/07/2022

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico —que leva águas quentes do hemisfério Sul para o hemisfério Norte, e traz águas frias do hemisfério Norte para o hemisfério Sul— é um mecanismo fundamental para a regulação do clima do planeta. Essa célula já colapsou no passado, devido a fatores naturais, e seu último colapso teve papel crucial no processo de deglaciação. Agora, a célula está outra vez ameaçada, por causa do aquecimento global. E uma pesquisa recente descobriu a sequência de eventos que provoca o colapso.
O estudo foi realizado por pesquisadores alemães e brasileiros, e teve como um dos autores principais o paleoclimatologista Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Artigo a respeito foi publicado na revista Nature Communications com o título "Subsurface ocean warming preceded Heinrich Events".
"Investigando sedimentos marinhos coletados entre o Canadá e a Groenlândia, descobrimos que, no passado, o aquecimento da subsuperfície oceânica daquela região fez com que as grandes geleiras que um dia cobriram os territórios que correspondem ao Canadá e ao norte dos Estados Unidos liberassem quantidades colossais de icebergs no Atlântico", diz Chiessi à Agência Fapesp.
Uma vez no oceano, estes icebergs sofreram derretimento e depositaram sedimentos continentais no fundo. "Foi exatamente a identificação desses sedimentos que, em conjunto com a reconstituição da temperatura da subsuperfície da região, permitiu, pela primeira vez, estabelecer que o aquecimento da subsuperfície precedeu a liberação maciça de icebergs."
O enorme volume de água doce produzido pelo derretimento dos icebergs modificou a composição do oceano nas altas latitudes do hemisfério Norte. E isso exerceu um tremendo impacto sobre o clima global, porque a região compreendida entre o Canadá e a Groenlândia é um sítio particularmente sensível da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico.
"Essa gigantesca circulação transporta, na superfície, águas quentes e de baixa densidade do Atlântico Sul para o Atlântico Norte. Nas altas latitudes do Atlântico Norte, essas águas superficiais liberam calor para a fria atmosfera. Com isso, ganham densidade e afundam na coluna de água. Uma vez nas profundezas, as águas agora frias e de alta densidade retornam para o sul, até os arredores da Antártida, onde voltam à superfície forçadas por um intenso processo de ressurgência. Ao chegarem à superfície, as águas são aquecidas, perdem densidade e fecham a Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico", descreve Chiessi.
O destaque é que essa circulação não transporta apenas uma enorme quantidade de água, de aproximadamente 18 milhões de metros cúbicos por segundo. Ela também transporta uma quantidade exorbitante de energia: cerca de 100 mil vezes a energia produzida pela usina hidrelétrica de Itaipu. A distribuição espacial desta energia influencia decisivamente o clima em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil. Enquanto uma circulação vigorosa mantém o clima que conhecemos, seu colapso causa uma marcante redistribuição de energia, alterando o clima.
A pesquisa recebeu apoio da Fapesp por meio do projeto "Perspectivas pretéritas sobre limiares críticos do sistema climático: a Floresta Amazônica e a Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico", coordenado por Chiessi.

A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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