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Demanda por lenha para cozinhar destrói floresta tropical no Congo

21/07/2022

Todos os dias, no final da tarde, mulheres carregando nas costas sacos com galhos saem do mato e pegam uma estrada ao sul do Equador. Homens passam em motos, um após o outro, carregando sacos de carvão. Meninos caminham com um tronco pendurado nos ombros, como se estivessem carregando uma baguete.
No meio das árvores, Debay Ipalensenda larga o machado e junta-se a esse desfile, que está destruindo lentamente uma das paisagens mais importantes do mundo, tudo para cozinhar uma refeição.
A cena se desenrola não apenas nesse trecho de estrada no Congo, mas em todos os 3,36 milhões de quilômetros quadrados de floresta tropical na Bacia do Congo, a segunda maior do mundo.
É um ritual que, por sua onipresença, é uma tragédia. E não apenas para as gerações de pessoas que não tiveram outros meios de preparar alimentos além de cozinhá-los a lenha, mas também para todo o planeta, pois as florestas, ao absorver o carbono, são essenciais para retardar o aquecimento global, mas aqui estão sendo desmanchadas árvore por árvore e, em alguns casos, galho por galho.
A indústria madeireira do Congo arranca árvores antigas preciosas para uso em móveis e na construção de casas, contribuindo para a destruição das florestas —sobretudo quando não são regulamentadas adequadamente. Além disso, faixas inteiras de florestas são queimadas para dar lugar à agricultura.
Mas a invasão da floresta por pessoas comuns em busca de material para cozinhar também é surpreendentemente destrutiva. Isso ocorre em parte porque derrubar e queimar árvores libera estoques de dióxido de carbono na atmosfera, onde ele atua como um cobertor, retendo o calor do sol e aquecendo o planeta.
Mas, além disso, cozinhar com lenha e carvão —madeira que é queimada até ser reduzida a carbono quase puro, que queima por mais tempo e a maior temperatura— afeta a qualidade do ar com as partículas emitidas na fumaça.
Quase 90% dos 89,5 milhões de habitantes do Congo dependem de lenha e carvão para cozinhar, segundo estimativas do Banco Mundial. O Congo perdeu mais de 480 mil hectares de floresta primária em 2021, principalmente com moradores desmatando terras para a agricultura e coleta de madeira para fazer fogo e carvão, segundo o Global Forest Watch.
Ipalensenda faz parte do comércio em expansão que abastece uma população crescente. Enquanto ele cortava um tronco de árvore, o baque de seu machado caseiro ecoava pela floresta. Ele não queria estar trabalhando ali, na mata, onde gira o machado por horas a fio. Ele já teve planos maiores.
"Meu sonho? Bem...", ele suspirou e fez uma pausa, apoiando-se no machado, enquanto uma borboleta amarela voava perto do seu rosto. "Meu sonho era ser médico."
Ipalensenda, 33, se formou no ensino médio e planejava cursar a universidade. Então seu pai adoeceu e morreu. De repente, coube a ele sustentar a família.
"Agora sou carvoeiro", disse.
O trabalho era um dos poucos disponíveis para ele nas pequenas comunidades de casas de tijolos de barro que margeiam a orla da floresta. Afinal, todo mundo precisa cozinhar as refeições de alguma forma.
A maior parte da destruição das florestas do Congo é uma questão de sobrevivência. Apesar de sua vasta paisagem arborizada, rios impetuosos e abundância de pedras preciosas, minerais e metais, o país é um dos mais pobres do mundo. É também um dos menos eletrificados.

Termine de ler esta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

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