
19/07/2022
Se ao ler “cimento” você esperava uma foto de uma indústria altamente poluente, não será dessa vez. Não que o setor cimenteiro não seja um forte emissor de gás carbônico (CO2), o que é. O concreto, cujo principal componente é o cimento, responde sozinho por 7% do CO2 que vai para a atmosfera, semelhante às emissões totais da Índia. Em poluição, só perde para o setor siderúrgico. A indústria do cimento, portanto, está entre as que enfrenta os maiores desafios na descarbonização.
Mas a foto desta reportagem, do centro de coprocessamento de pneus na fábrica da Votorantim Cimentos, em Rio Branco do Sul (PR), ilustra as mudanças que ocorrem nas últimas duas décadas e que tornaram o Brasil referência mundial com a produção de cimento com menos emissão de carbono. Do total de emissões do país, só 2,3% vêm do cimento.
Em 2019, o Brasil gerava 564 quilos (kg) de CO2 por tonelada de cimento, 12% a menos que a média mundial, segundo a Global Cement and Concrete Association (GCCA), que compila dados de 850 fábricas no globo, exceto China. Em 1990, o Brasil emitia 700 kg de CO² e o mundo, 750 kg.
— No início dos anos 2000, a pressão sobre a indústria era incipiente, mas as empresas já tinham visão de longo prazo e entendiam que a questão climática ia bater à porta— afirma Gonzalo Visedo, líder de Sustentabilidade do Sindicato Nacional da Industria do Cimento (SNIC).
A Votorantim Cimentos é hoje uma das brasileiras na vanguarda desta agenda. Entre 1990 e 2021, ela reduziu as emissões de CO2 por tonelada de cimento produzido em suas fábricas em dez países em mais de 20%. No Brasil, a redução foi de 27%.
— Decidimos, em 2019, desenvolver cadeias de valor e insumos para substituir o coque de petróleo e, hoje, usamos diversas fontes de energia, como pneus, resíduos de tintas, restos de madeira, caroço de açaí e azeitona — explica Álvaro Lorenz, diretor global de Sustentabilidade, Relações Institucionais, Desenvolvimento de Produto e Engenharia da Votorantim Cimentos.
Ao contrário de outras indústrias, a maioria das emissões de cimento — cerca de 60% — é gerada no processo de produção do clínquer, material obtido a partir da combinação de cálcio, silício, ferro e alumínio moídos e queimados em forno a uma temperatura de 1.500 C, e não da eletricidade. Nesse processo, há liberação de CO2. Além disso, para chegar a essa temperatura, a praxe era usar combustíveis fósseis para aquecimento das caldeiras.
A fábrica da Votorantim Cimentos em Rio Branco (PR) queima pneu desde 1991. No caso do caroço do açaí, a fábrica de Primavera (PA), já coprocessou 214 mil toneladas em 2020 e 2021 e coleta o material com cooperativas locais, gerando renda para as famílias.
Globalmente, a Votorantim Cimentos substituiu 22,4% dos combustíveis por fontes alternativas em 2021. As iniciativas contribuem para ela bater a meta de atingir 53% de substituição térmica no Brasil até 2030, mas não serão suficientes para chegar à neutralidade em poucas décadas.
A meta do setor de cimento no Brasil é chegar a 375 kg CO2/tonelada de cimento até 2050, redução de 33% em relação a 2015. Visedo diz que, para dar subsídio técnico para a indústria mitigar essa quantidade de emissões, o SNIC lançou em 2019 o Roadmap Tecnológico do Cimento até 2050 — com oito frentes de ação para chegar à neutralidade em carbono até 2050.
Uma delas é diminuir o percentual de clínquer no cimento, que depende de flexibilização de normas técnicas. Outra é misturá-lo com materiais menos poluentes. A Votorantim conseguiu produzir na sua fábrica de Pecém (CE) um cimento com 40% de clínquer (o comum é 80%).
Estudo global recém-publicado pelo Credit Suisse sobre o setor, aponta que apenas uma redução adicional de 13% nas emissões diretas de cimento/concreto é viável no período de 2030-50, já que a “clinkerização” continuará a gerar emissões, ainda que usando 100% de energia limpa.
O caminho para o concreto net zero passa pela captura de carbono, que deve ser responsável por 59% da redução necessária para 2030-2050. O problema é que essas tecnologias, como comprimir e armazenar o gás, seja para uso ou para isolamento, são caras e ainda pouco desenvolvidas.
Entrevista: ‘Mercado poderá ter aumento de preço’
O cimento é um dos produtos em que a redução da geração de carbono é uma das mais desafiadoras. O banco Credit Suisse acaba de publicar relatório global em que identifica riscos e oportunidades para o setor nessa seara. Nesta entrevista ao Prática ESG, Vanessa Quiroga, diretora de Security Research no Credit Suisse México e analista de cimento, construção e imobiliário na América Latina, detalha os desafios da indústria.
Como a tecnologia pode ajudar a alcançar a meta de ser net zero até 2050?
As novas tecnologias estão relacionadas ao uso de novos materiais, como argila calcinada. Outra que está sendo implementada em alguns países é o sistema de recuperação de calor, que pode melhorar muito a eficiência do forno.
A tecnologia com maior impacto no longo prazo em relação à meta de emissão líquida zero de (CO2) é a captura de carbono, mas a associação global de produtores de concreto e cimento só espera a implementação dela em escala industrial até 2030. Ou seja, ela ainda não produz efeitos. O avanço tecnológico é importante, mas alguma parte da regulamentação do setor de construção também pode gerar impacto considerável.
Quem está mais à frente dessa jornada?
Dentro da cobertura setorial do Credit Suisse, empresas como a Holcim e a Cemex são consideradas extraordinárias porque ambas trabalham para elaborar estratégias voltadas à meta de emissão líquida zero, além de outros projetos que preveem a caO concreto com emissão líquida zero exigirá uma abordagem de longo prazo, uma vez que a captura, utilização e armazenamento de carbono só será viável em 2030, pelas estimativas da Associação Global de Cimento e Concreto. Mesmo que todas as empresas pudessem incorporar essas soluções, esse movimento só reduziria as emissões em cerca de 40%, e o restante teria de ser feito com tecnologias de captura de carbono que ainda não estão prontas.
Como os preços no mercado de carbono podem afetar o setor?
Se os esforços da indústria de cimento forem isolados ou insuficientes, e reguladores adotarem políticas agressivas de carbono, o mercado poderá sofrer com acentuados aumentos do preço. Algumas empresas na Europa que sofrem déficits de licenças de carbono estão adicionando um “prêmio de carbono” ao preço do cimento.ptura de carbono.
Por que, para o setor, é mais importante se concentrar no longo prazo?
O concreto com emissão líquida zero exigirá uma abordagem de longo prazo, uma vez que a captura, utilização e armazenamento de carbono só será viável em 2030, pelas estimativas da Associação Global de Cimento e Concreto. Mesmo que todas as empresas pudessem incorporar essas soluções, esse movimento só reduziria as emissões em cerca de 40%, e o restante teria de ser feito com tecnologias de captura de carbono que ainda não estão prontas.
Como os preços no mercado de carbono podem afetar o setor?
Se os esforços da indústria de cimento forem isolados ou insuficientes, e reguladores adotarem políticas agressivas de carbono, o mercado poderá sofrer com acentuados aumentos do preço. Algumas empresas na Europa que sofrem déficits de licenças de carbono estão adicionando um “prêmio de carbono” ao preço do cimento.
As empresas podem sofrer impacto em suas margens se não conseguirem repassar os preços de carbono ao consumidor final, o que pode limitar sua capacidade de investir em iniciativas para reduzir as emissões.
Investidores excluirão empresas de cimento e construção de seus portfólios?
Os investidores são mais cautelosos com a indústria de cimento, devido à cota de emissões desse setor. Mas desconsideram fatores importantes, como a relevância do cimento para a construção e até o histórico bem-sucedido de redução das emissões de CO2.
Fonte: O Globo
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