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Como seria a vida se não houvesse mais natureza

19/07/2022

Nos primeiros minutos do filme de ficção científica Blade Runner 2049, um carro de polícia sobrevoa uma paisagem que foi transformada pela agricultura sintética.
Espelhos dispostos concentricamente para capturar a energia solar se inclinam em direção a torres centrais, como devotos voltados para Meca, circunferência após circunferência, se perdendo no horizonte.
Mais adiante, um mosaico de fazendas cobertas por plástico cobre cada centímetro de terra, brilhando à luz do Sol como facetas de um verniz rachado.
Dentro de cada uma destas células, um trabalhador vestindo traje de proteção draga um punhado de larvas de besouros que se contorcem de dentro de um tanque com água verde musgo.
Ficamos sabendo que estas técnicas agrícolas salvaram a humanidade da fome causada pelo colapso ecológico em meados da década de 2020.
O planeta inteiro está devastado, contendo nada além de relíquias altamente cobiçadas de organismos "reais" e um clima disfuncional caracterizado pela poeira seca.
Ainda assim, humanos sobrevivem e até prosperam — pode não haver mais nada selvagem, mas eles podem criar animais replicantes perfeitamente projetados para substituir as coisas reais.
O "cordão umbilical" metafórico que conecta a sobrevivência humana e a biosfera foi realmente cortado.
Ao longo de 2020 e 2021, enquanto o mundo se recolhia por causa da pandemia de covid-19, me peguei refletindo sobre esta representação sombria, como parte do meu trabalho no Centro para o Estudo do Risco Existencial (CSER, na sigla em inglês) da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Fiquei intrigada sobre como seria o futuro uma vez que a humanidade tivesse superado a covid-19, e a crise climática-ecológica mais uma vez veio à tona.
Se a degradação ambiental severa continuar, um caminho plausível é aquele em que os seres humanos, por necessidade, se desvinculam de uma biosfera que deixa de funcionar.
Um pensamento não saía da minha cabeça, algo que o pesquisador de sistemas complexos Brad Werner falou em uma grande conferência científica em 2012.
Em uma palestra intitulada "Is Earth F**ked?", ele disse que o capitalismo global, auxiliado pela tecnologia, "tornou o esgotamento de recursos tão rápido, conveniente e livre de barreiras que os ´sistemas humano-Terra´ estão se tornando perigosamente instáveis em resposta".
E se, como Werner sugeriu, a Terra realmente estiver com problemas e os sistemas naturais do planeta estiverem fadados a entrar em colapso e morrer?
Vamos desenvolver cópias artificiais para substituí-los, como em Blade Runner? E se isso acontecer mesmo, como seria esse mundo?
Estas perguntas me levaram a publicar um artigo analisando as consequências e os perigos de cortar o cordão umbilical entre os seres humanos e a biosfera humana e como este processo pode já ter começado.
A humanidade já está no caminho da dissociação dos sistemas naturais — então, se quisermos evitar os piores cenários desta trajetória, o que podemos fazer a respeito?
Diante de um iminente colapso dos sistemas naturais da Terra, falar sobre dissociação não é mais ficção científica. Em alguns casos, ela se manifesta como "reparos" cada vez mais profundos para preservar nossa busca por uma vida boa.
Por exemplo, os cientistas começaram a inventar maneiras de sintetizar "serviços ecossistêmicos" — como polinização ou outros processos naturais que beneficiam a sociedade humana.
Na produção de alimentos, isso envolve tentar plantar sob luz artificial no subsolo, cultivar microalgas, micoproteínas e larvas em biorreatores e introduzir genes modificados para aumentar a resiliência de espécies agrícolas às mudanças ambientais.

A matéria por completo pode ser lida no g1

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