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Após 200 anos, Mata Atlântica vê chance de parar de encolher e voltar a crescer

05/07/2022

A história da Mata Atlântica se confunde com a do Brasil após a declaração da Independência. No período colonial, apesar da pressão dos ciclos do pau-brasil, da cana-de-açúcar e do ouro, a maior parte do bioma ficou preservado. No Império e na República, porém, o desmatamento foi brutal. Hoje, 200 anos depois, essa floresta finalmente vê a chance de parar de encolher e começar a crescer.
Estimar a extensão da Mata Atlântica quando Dom Pedro I deu o grito de independência, em 1822, não é fácil, mas cientistas fizeram uma estimativa bruta estudando registros antigos de propriedades rurais e produção agropecuária.
— Até meados do século XIX, a evidência indica que não mais do que cerca de 10% da Mata Atlântica tinham se transformado — conta o historiador Diogo Cabral, professor do Trinity College de Dublin (Irlanda).
Em dois séculos, a situação se inverteu completamente. Hoje, há pouco mais de 10% de mata primária preservada, o restante sendo áreas desmatadas ou em regeneração. Tecnicamente, quando considerados fragmentos pequenos de mata e florestas de rebrote, até 27% da área original do bioma estão cobertos de vegetação, mas em muitos lugares a natureza não recuperou a diversidade de bichos e plantas.
Cabral conta como a cana começou a impulsionar o desmate para produção de lenha necessária ao cozimento do caldo de açúcar.
— A cana precisava de certas condições ambientais para crescer, principalmente umidade, e ficou restrita na maior parte do tempo da área colonial à costa — explica.
A interiorização do desmatamento se intensificou no fim do ciclo canavieiro, com a explosão do café até Itu (SP) e depois em outras regiões.
— De 1830 a 1840, a economia do café no Vale do Paraíba já era fortíssima, desmatando muito e rapidamente. Isso se potencializou ao longo do século XIX, sobretudo em sua parte final— diz.
Bem antes das indústrias de petróleo ou fertilizantes, a floresta era derrubada para produzir o carvão vegetal consumido pelos centros urbanos. A cinza resultante da queima da própria mata fornecia os nutrientes para a terra, fertilidade que durou poucas décadas.
Em alguns lugares, no entanto, o avanço do desmate foi freado no início do século XX. Hoje, um quinto do que resta de mata está em unidades de conservação; o restante, em terras privadas. A maior massa contínua de mata fica no Vale do Ribeira, em SP.
A história da região nos últimos dois séculos inspira estratégias de conservação da mata daqui em diante e de estímulo para o rebrote.
— O Ribeira teve um ciclo de produção de chá. E, antes de Santos, o principal porto de São Paulo ficava lá, em Iguapé. O pessoal tirou parte da floresta, principalmente madeira voltada para produção de energia — diz David Canassa, diretor da divisão de reservas da Votorantim, dona de 31 mil hectares preservados lá.
Quando a devastação começou a se ampliar no vale, o fundador da empresa, Antônio Pereira Inácio, decidiu comprar terras ali. Logo em seguida, o governo paulista passou a criar parques.
A floresta particular da Votorantim, batizada de “Legado das Águas”, tinha como função original garantir a captação hídrica para as usinas hidrelétricas do grupo, geradoras de energia para produção de alumínio. Com a nova Lei da Mata Atlântica, em 2006, a floresta nativa passou a ser legalmente protegida, e a empresa pensou em vender 90% do território.
A decisão, porém, foi manter a propriedade e criar uma reserva particular, há dez anos aberta para pesquisa, ecoturismo e produção de sementes. Ali encontrou-se uma nova população de muriqui (o maior macaco das Américas, em vias de extinção) e redescoberta a orquídea Octomeria estrelensis, dada como extinta.
Hoje a empresa articula projetos de PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) e REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação). Outra iniciativa é surfar a onda do reflorestamento, promessa da década.
Itu (SP) foi palco da história econômica do Brasil e, portanto, do desmatamento. Rota da primeira estrada que interiorizou a produção de cana, viveu também o ciclo do café e o avanço da agropecuária. Hoje, é sede de um projeto que busca semear o reflorestamento do bioma em que se localiza.
Quem visita o Centro de Experimentos Florestais da SOS Mata Atlântica estaciona o carro no terreiro de secagem de grãos de uma antiga fazenda de café. A área foi adquirida pela Schincariol, por sua vez comprada pela Heineken.
Sem expertise em cafeicultura, a empresa transformou em pastagem a terra em torno de seu ativo mais importante: água de uma represa usada para produzir refrigerantes. Em 2007, para ampliar a capacidade do reservatório, cedeu a fazenda em comodato para a ONG criar um projeto de reflorestamento. A mata ciliar em torno da represa tem o papel de fazer o solo absorver mais água para fazer bebidas.
Desenvolveu-se ali expertise para produção de mudas e recomposição da floresta nativa enquanto se recuperava a fazenda. Dos 526 hectares do terreno, 386 foram restaurados com mata que já cresce no local há uma década. Parte da fauna típica voltou a circular no local, incluindo onças-pardas e gatos-mouriscos. O viveiro produz ao ano 750 mil mudas de espécies nativas e abastece projetos de reflorestamento fora de Itu também, em centenas de hectares anuais.
A demanda ainda é pequena, mas deve crescer na próxima década, sobretudo para a recomposição de APPs (áreas de preservação permanente) junto a rios e nascentes, como determina o Código Florestal. O passivo de APP na Mata Atlântica é de 3 milhões de hectares, quase o tamanho do Estado do Rio. E o prazo legal para o recompô-lo se encerra em vinte anos, em 2042.
Mas, apesar da mata que se expande espontaneamente em propriedades abandonadas e do reflorestamento, o bioma ainda não está crescendo. Com o avanço do agronegócio e da especulação, ele perdeu 21.642 hectares em 2021, incluindo corte de mata secundária, desmates ilegais e autorizações de desmate questionáveis, em um aumento de 66% na devastação.
— A área liquida está estável nas últimas décadas. Perdemos 1 milhão de hectares desde 1985 e empatamos com o que ganhamos em regeneração — explica Luis Fernando Pinto, da SOS Mata Atlântica.
Com a crise do clima, agora, o bioma ganha importância.
— A ciência aponta que só parar de emitir CO2 é insuficiente. Precisamos remover em escala e velocidade alta. A restauração entrou na agenda global de soluções baseadas na natureza para o clima — diz.
O Brasil precisa aproveitar a conjuntura, pois em algumas décadas os créditos de carbono para energia podem se tornar mais atrativos do que os projetos de reflorestamento.
— A Mata Atlântica é “o” bioma para se investir em restauração agora — diz.
Enquanto a Mata Atlântica busca se reavivar, na Amazônia a luta é para que a história da devastação não se repita. Com 20% da floresta local já derrubada, o Brasil assumiu metas de zerar o desmatamento amazônico até o fim da década. As taxas anuais de corte, porém, estão aumentando agora.
Para cientistas, a Amazônia vive um momento importante de decisão social.
— Na sua história, o Brasil sempre se posicionou de maneira internacional como provedor de recursos naturais, desde a chegada dos portugueses. Agora, olhando para o futuro do papel da Amazônia, com a crise climática, ela ganha um outro papel, porque um eventual colapso da floresta seria desastroso para o clima do mundo — diz o economista Juliano Assunção, da PUC-Rio, coordenador da “Amazônia 2030”, rede de pesquisadores que cria um plano de desenvolvimento para a região.
— A gente não precisa desmatar para poder se desenvolver. Pelo contrário, o desmatamento tem feito muito mal à região, porque está associado a atividades ilegais e à violência — explica.
Com 70% da população local em cidades, é um mito achar que a maioria dos empregos na região se ancora em desmate, garimpo e madeira, ele diz. Com a maior parte dos amazônidas vivendo de comércio e serviços, a pressão da devastação vem de setor minoritário, que produz riqueza efêmera e promove concentração de renda.
A relação entre desmatamento e barbárie vem sendo desnudada pelo IPS (Índice de Progresso Social), que mede o desenvolvimento levando em conta também o ambiente. Pesquisadores do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) usam essa métrica para avaliar municípios da região.
— Na fronteira do desmatamento, principalmente nos municípios bem distantes, o que existe é um faroeste caboclo — diz Daniel dos Santos, do Imazon.
A a exploração predatória de recursos naturais na Mata Atlântica também ajuda a explicar por que o Brasil não é hoje um país desenvolvido, dizem os pesquisadores.

Fonte: O Globo

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