
05/07/2022
O Pantanal, maior planície inundável do planeta em extensão contínua, enfrenta mais uma ameaça. Depois de ter sido drasticamente afetado pelos incêndios em 2020 e 2021, o bioma pode sofrer danos ambientais irreversíveis, em sua porção no Mato Grosso do Sul, caso áreas naturais da planície sejam convertidas em plantio de soja de larga escala.
Quem faz o alerta por meio de uma campanha de sensibilização junto à sociedade civil e ao Poder Público é o Instituto SOS Pantanal, que lançou uma petição on-line para recolher assinaturas de apoio à causa.
De acordo com o instituto, atualmente existem menos de 3 mil hectares plantados de soja dentro da planície pantaneira no Mato Grosso do Sul, localizados nos municípios de Coxim, Miranda e Aquidauana.
Pode parecer um número pequeno, mas há um risco efetivo de crescimento destas áreas nos próximos anos, podendo afetar seriamente o equilíbrio do meio ambiente. Os investimentos em infraestrutura como estradas e aterros dentro da planície vão facilitar a produção e seu escoamento em um futuro próximo.
Embora ainda não se possa avaliar os impactos gerados por esses 3 mil hectares de soja cultivados, o diretor de Comunicação e Engajamento do SOS Pantanal, o biólogo Gustavo de Carvalho Figueiroa, afirma que é consenso, entre representantes rurais e de outras instituições que atuam na defesa do ecossistema, de que o plantio em larga escala do grão é um risco, pois interfere diretamente no meio ambiente e o Pantanal, segundo ele, não tem vocação para esse cultivo.
“O bioma tem a vocação para a pecuária, que está estabelecida na região há mais de 200 anos. Bem manejada, a produção pecuarista mantém uma relação de equilíbrio com o Pantanal. Já a soja, não, pois requer o desmate de grandes áreas e o uso de defensivos agrícolas para viabilizar a produção em larga escala”, avalia Gustavo.
Ainda de acordo com Figueiroa, há um exemplo na região da cidade vizinha ao Pantanal, Bonito (MS). Hoje, a região toda tem seus principais rios ameaçados pelo avanço do cultivo de soja em regiões de banhado, mais vulneráveis a qualquer alteração.
“A morosidade do Estado em pautar ou direcionar o avanço dessas lavouras propiciou que ele fosse desordenado em locais ambientalmente sensíveis a um custo enorme para a região”, contextualiza.
O Mato Grosso do Sul possui 35,7 milhões de hectares em sua totalidade. Em 2021/2022, 3,7 milhões de hectares foram utilizados para o plantio de soja (11% do Estado).
Porém, existem atualmente 8 milhões de hectares de áreas degradadas que poderiam ser convertidas em plantio sem necessidade de avançar no Pantanal.
“Diante desse cenário, a hora de pautar e direcionar esforços nessa legislação é agora, quando ainda há poucos hectares de soja na planície e não há tempo a perder”, enfatiza o presidente do SOS Pantanal, Alexandre Bossi, sobre a urgência de sensibilizar a todos – sociedade civil, opinião pública, ambientalistas e a classe política do Mato Grosso do Sul – sobre os riscos que o amplo cultivo de soja pode acarretar.
Ainda de acordo com Bossi, o Estado vizinho, Mato Grosso, já possui uma legislação que impede o cultivo de soja na planície. “O Mato Grosso do Sul deveria seguir o mesmo caminho. Viemos alertar sobre o futuro da planície e trazer à tona futuros problemas e, com eles, possíveis soluções, inclusive econômicas”, diz.
Segundo Figueiroa, no Pantanal, por ser uma grande extensão alagável, o risco de malefícios gerados por uma produção agrícola em larga escala é potencializado por conta da utilização de moléculas de ação biocidas (inseticidas, fungicidas, herbicidas e nematicidas), que visam ao controle de pragas, doenças e plantas invasoras.
Esses produtos possuem compostos poluidores, como metais pesados, surfactantes e emulsificantes, dentre outros, que, quando entram em contato com o solo, não há barreira física que os impeça de contaminar a água de todo o sistema, afetando esse bioma que é abrigo de uma rica biodiversidade e de populações tradicionais.
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