
14/06/2022
Já imaginou caminhar pelo calçadão de Copacabana ao lado de Pelé? Ou assistir a um show do tenor espanhol Plácido Domingo, acompanhado ao piano por Tom Jobim (1927-1994), na Lagoa Rodrigo de Freitas? Ou, ainda, conhecer o líder budista Dalai Lama durante uma visita ao Cristo Redentor? Parece difícil, impossível de acreditar, mas, há exatos 30 anos, esbarrar com uma dessas celebridades no Rio de Janeiro era algo perfeitamente normal.
Entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, a cidade sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Unced, na sigla em inglês). A Rio-92, como ficou conhecida, foi realizada em comemoração aos 20 anos da Conferência de Estocolmo, em 1972, e reuniu autoridades do mundo inteiro, dos EUA a Tuvalu, um minúsculo arquipélago da Oceania, com um único objetivo: salvar o planeta.
"A Rio-92 foi um momento solar da diplomacia brasileira", define o advogado Celso Lafer, então ministro das Relações Exteriores do Brasil. "Ampliou a credibilidade internacional do país e, por meio de um tema de alcance global, abriu espaço para o lugar do Brasil no mundo. Tenho muita satisfação de ter participado dela."
O "maior evento internacional já sediado em nosso país", como define o ex-chanceler, foi dividido em duas partes. Uma delas aconteceu no Riocentro, tradicional espaço para feiras e eventos, com quase 98 mil m² na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade. A outra no Aterro do Flamengo, uma das maiores áreas de lazer da cidade, com 1,3 milhão de m2, na Zona Sul. A primeira recebeu delegados de 179 países. A segunda, batizada de Fórum Global, representantes de 1,8 mil organizações não governamentais (ONGs).
"Em geral, 20 ou 30 chefes de Estado costumavam comparecer a uma conferência da ONU. No caso da Rio-92, mais de 100 marcaram presença. Foi a maior conferência já organizada pelas Nações Unidas", afirma o físico José Goldemberg, então secretário de Ciência e Tecnologia e de Meio Ambiente do governo brasileiro.
A Rio-92, ou Eco-92, como também foi apelidada a conferência, começou oficialmente às 10h do dia 3, com o discurso do então secretário-geral da ONU, o egípcio Boutros-Ghali (1922-2016), no Riocentro. Na abertura do evento, o então presidente Fernando Collor de Mello e o secretário-geral da Rio-92, o canadense Maurice Strong (1929-2015), também discursaram. Por 12 dias, Collor trocou o Palácio da Alvorada, em Brasília, pelo Palácio Laranjeiras, a residência oficial do governador do Rio na época, Leonel Brizola (1922-2004).
Durante o evento, o Riocentro virou uma espécie de "cidade dentro da cidade", com direito a três postos de saúde, que atenderam a uma média de 120 casos por dia: de hipertensão a malária. Logo no primeiro dia, o jornalista Reali Júnior (1941-2011), correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Paris, sofreu um infarto e teve que ser transferido para o hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo.
Segundo os organizadores, circularam pelos três pavilhões do Riocentro cerca de 20 mil pessoas por dia, entre delegados, ambientalistas e funcionários, e 8 mil jornalistas foram credenciados para cobrir o evento. Uma das coletivas de imprensa mais concorridas foi a do oceanógrafo francês Jacques Cousteau (1910-1997). Foram contratados 2 mil seguranças para patrulhar a área de 72 mil m² e evitar protestos de ativistas.
Os dois últimos dias de conferência foram os mais decisivos. Não por acaso, o encontro que reuniu 62 chefes de Estado, 43 primeiros-ministros e 8 vice-presidentes, entre outras lideranças mundiais, ganhou o sugestivo título de "A cúpula da Terra".
"O balanço da Rio-92 é altamente positivo. Muitos governos passaram a levar o tema do meio ambiente mais a sério. No entanto, algumas promessas nunca saíram do papel. Nações ricas se comprometeram a apoiar financeiramente os países em desenvolvimento na geração de tecnologia limpa, na adaptação às mudanças climáticas e na preservação de reservas florestais. Isso, porém, nunca aconteceu", afirma o deputado estadual Carlos Minc.
Ao todo, 102 governantes se inscreveram para discursar. Os pronunciamentos tiveram, no máximo, sete minutos de duração. O do americano George H. W. Bush (1924-2018), porém, chegou a oito e o do cubano Fidel Castro (1926-2016), famoso por seus longos discursos, não passou de cinco. A ONU disponibilizou tradução simultânea em sete idiomas: inglês, francês, espanhol, chinês, árabe, russo e português. O papa João Paulo 2º (1920-2005), autoridade máxima da Igreja Católica, não compareceu à Rio-92, mas a Santa Sé enviou uma delegação de 14 pessoas chefiada pelo cardeal italiano Angelo Sodano (1927-2022).
"Alguns temas polarizaram as negociações. Um exemplo: quem pagará a conta dos programas ambientais? Outro: a inclusão da pobreza e da saúde na questão ambiental", recorda o físico Ennio Candotti, então presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "Ficou logo evidente que os compromissos eram frágeis e sujeitos a negociações bilaterais, em que pesam as relações de poder militar e econômico entre os países. No entanto, o impacto mais importante da Rio-92 foi ter incluído o tema do meio ambiente na pauta da política internacional."
A matéria na íntegra pode ser lida no g1
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