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Indígenas xavantes recolhem sementes para restaurar o cerrado

07/06/2022

Em uma manhã abafada de dezembro passado, oito mulheres e seu cacique deixaram a aldeia indígena xavante Ripá, na Terra Indígena Pimentel Barbosa, a bordo de um caminhão. Depois de alguns quilômetros, ao fim da estrada, começaram uma caminhada em fila indiana por trilhas quase imperceptíveis, escondidas abaixo da grama que lhes chegava ao joelho.
A sombra, pouca, vinha das árvores finas, baixas e retorcidas. "É o amor que sentimos pelas plantas, por seus frutos e sementes que nos faz caminhar sob o sol escaldante sem reclamar", diz Neusa Rehim’Watsi’õ Xavante, filha do cacique.
A maioria dos cerca de 20 mil xavantes vive no cerrado em Mato Grosso, um mosaico de florestas e pastagens, conservação e desmatamento, que cobre 40% do estado. Apesar de mais seco e menos denso do que a floresta amazônica, o cerrado conta com fauna e flora exuberantes e únicas.
Por isso, biólogos costumam chamá-la de a savana mais biodiversa do mundo e estimam que 5% das espécies de plantas e animais do planeta vivam nesse bioma.
Nas últimas décadas, porém, aproximadamente 12% do cerrado em Mato Grosso passou a dar lugar a pastagens de gado e campos de monocultura de grãos.
Há sete anos, os membros da aldeia Ripá fazem parte de um grupo que trabalha para restaurar parte da vegetação do cerrado. O objetivo é proteger seu território e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida dos moradores, vendendo sementes que eles coletam na região.
Desde que tem memória, o povo xavante faz viagens frequentes para a coleta de sementes. Elas são conhecidas como "dzomoris". Essas expedições durante as quais homens caçam e mulheres colhem frutas e raízes são parte de seu calendário cultural.
Na aldeia Ripá, muitas vezes as mulheres acompanhadas de guias masculinos, que conhecem melhor a geografia pela sua relação com a caça, fazem essas viagens especificamente para coletar sementes que servirão para replantar terras degradadas do cerrado.
"Com estas sementes, vamos reflorestar", afirma o cacique José Serenhomo Sumené Xavante.
Ironicamente, no entanto, os compradores das sementes muitas vezes são os mesmos indivíduos e empresas responsáveis pelos projetos que causam desmatamento e levam à necessidade de replantio do cerrado.
Um dia após a expedição de coleta de sementes, o cacique levantou cedo para pintar seu corpo com tinta de guerra vermelha e preta. Aplicou cuidadosamente a mistura de urucum e cinzas de raízes de plantas nas costas, no peito e no cabelo.
Sob um céu nublado, na clareira onde as crianças da aldeia costumam jogar futebol, seus guerreiros mais saudáveis, também com os corpos pintados, se reuniram ao redor dele, cantando e golpeando a terra batida com suas bordunas e arcos.
O chefe fez então um discurso curto e eloquente, dizendo que já era chegada a hora de expulsar os forasteiros que haviam cavado uma mina de cal no limite sul de sua reserva. Imitando um pássaro, ele chamou os homens com gritos curtos e agudos, e eles se amontoaram na traseira da velha caminhonete da aldeia.

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