
07/06/2022
De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Lausanne (Suíça), cujos resultados foram publicados na quinta-feira (2) na revista Science, a vegetação aumentou em quase 80% da superfície dos Alpes acima de 1.700 metros, onde geralmente só existe neve e montanha. Antoine Guisan, biólogo e co-autor do estudo, não esconde sua preocupação em entrevista à RFI.
RFI: Qual é o novo fato científico que seu estudo traz em relação ao que já sabíamos sobre os efeitos da mudança climática nas montanhas?
Antoine Guisan: Tanto quanto sabemos, este é o primeiro estudo que mostra uma clara diminuição da neve permanente em altas altitudes, e um verde tão significativo, em contrapartida. Concentramo-nos em áreas acima de 1.700 metros ao longo dos Alpes. Nessas áreas, a vegetação aumentou em 77% da superfície em 40 anos. Isto é espetacular, não o esperávamos. Ao mesmo tempo, a área de neve permanente diminuiu em quase 10%, o que é muito.
A razão pela qual a neve diminuiu em menos área do que a vegetação aumentou poderia ser que somente a presença ou a ausência de neve poderia ser medida por satélite, enquanto uma mudança mais gradual foi medida pela biomassa vegetal.
Entretanto, enquanto as imagens utilizadas mostram um encolhimento da cobertura de neve, elas não dizem nada sobre sua profundidade, que pode também ter diminuído e pode, portanto, desaparecer muito rapidamente se o aquecimento global continuar.
O aumento de área verde do Ártico tem sido estudado desde o início dos anos 1980. Sabe-se agora que todo o arco alpino também é afetado por esta mudança, e de forma maciça.
RFI: Como você chegou a este resultado?
AG: Utilizamos imagens de satélite da NASA. No passado, realizamos testes em pequenas áreas e tivemos respostas tão fortes que achamos que seria interessante ver o que estava acontecendo na escala da totalidade dos Alpes.
A outra contribuição deste estudo é que trabalhamos com uma resolução de imagem muito mais precisa do que o único estudo anterior também realizado em todo o arco alpino: cada pixel examinado representa 30 metros por 30 metros de relevo, em todo o arco alpino, e isto em várias centenas de imagens de 1984 a 2021, ou seja, quase 40 anos. Nestas altitudes muito elevadas, o relevo é tão desigual que é importante poder trabalhar com a mais alta resolução possível. O resultado, como eu disse, é que 77% desses pixels mostram um claro sinal de aumento da área verde.
RFI: Quais são as razões para este aumento da vegetação em grandes altitudes?
AG: A mudança climática, porque os Alpes se aqueceram em 2°C desde a era industrial. Isto é enorme, já que é quase o dobro da média mundial. Este aquecimento leva a um aumento das espécies vegetais em altas altitudes e, portanto, também a um aumento do limite da floresta. E um dos precursores deste aumento da cobertura florestal é a neblina das pastagens logo acima da linha de árvores, que são transformadas em pântanos com rododendros, mirtilos e juníperos, por exemplo. Um índice de vegetação [o NDVI] torna possível determinar com muita precisão o aumento desta biomassa, a partir do espaço.
Termine de ler a entrevista na Folha de S. Paulo
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