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Jacarandás de Lisboa vieram do Brasil, mas capital mundial fica na África do Sul

02/06/2022

Há quem afirme que a melhor vista para o azul lilás com que os jacarandás pintam Lisboa nesta altura do ano se alcança do Tejo. Pode ser, até porque a cidade e a sua abertura ao mar tem tudo a ver com a história dessas árvores na cidade.
Foi com o embalo dos ventos que traziam as embarcações vindas de volta ao Tejo que também vieram as sementes dos jacarandás, no início do século 19. Vieram do Brasil. Primeiro, para integrar a coleção do Jardim Botânico da Ajuda. Depois, para serem espalhadas pela cidade.
O jacarandá-mimoso é uma espécie arbórea que, em Lisboa, se faz notar no período que antecede o verão, anunciando-o. Dispensa as folhas no fim de abril para que, de maio a junho, pincele a capital com manchas azul lilás, abraçando praças e ruas. É uma árvore exótica, nativa da Argentina, Bolívia e Paraguai, e que se adaptou ao clima.
Porque o homem gosta de assumir a função de pássaro, dispersando sementes desde que começou, como eles, a viajar pelo mundo, reza-se que este feito de trazer os jacarandás para Lisboa teve a mão de Felix Avelar Brotero, ninguém menos do que o pai da botânica em Portugal, tendo dirigido o Jardim Botânico da Ajuda de 1811 a 1826. Como boa prática, que herdou dos tempos em Paris, à semelhança do que fez com outras espécies, também oferecia as sementes desta árvore a quem quisesse cultivar pela cidade. Afinal, tinha-as à mão de semear.
Quem o afirma é Dalila Espírito Santo, a engenheira que também dirigiu este Jardim Botânico de 2002 a 2019, confirmando que Brotero, para incentivar a plantação, propagandeava: "É uma belíssima árvore para Lisboa". Algo que, para a ex-diretora, serve de prova para o seu papel na difusão da espécie que está um pouco por toda a cidade.
Curiosamente, a introdução da planta antecede o regresso da corte do Brasil, numa altura em que os pigmentos do espectro azul eram valiosíssimos. Para a realeza, esta planta, pelo seu exotismo, tinha um valor não comercializável: era uma forma de demonstrar o poder real. "Elementos exóticos, como o jacarandá, serviam como um gênero de televisão da época", explica a especialista.
Não é por acaso que o rei d. João 6º, quando regressa a Portugal, decide que o Jardim Botânico deve abrir todas as quintas feiras ao público. Se ainda hoje nos impressiona, apesar dos estímulos a que estamos expostos, imagine-se na altura.
Há um outro segredo que, nos nossos tempos, só é conhecido pelos estudiosos e atentos: as duas árvores do Jardim Botânico, talvez por serem as primeiras a ser aclimatadas a Lisboa, são as últimas a florir na cidade, o que talvez as reassegure que terão uma floração mais exuberante do que as outras, que delas brotaram um dia. Este ano, as flores apareceram pela cidade na primeira semana de maio.
O jacarandá-mimoso parece estar em contraciclo pela sua postura, quer na caducidade da folha, quer na floração. Mas o jardineiro Nuno Prates clarifica que "a árvore está a ser coerente com o seu ciclo, tendo um período fugaz sem folhas." A floração desperta com a temperatura que teria o mesmo efeito na América Latina, e que só é atingida cá no anúncio de verão de uma primavera tardia.
Esta necessidade de temperaturas elevadas impede que a árvore seja uma boa escolha para zonas a norte do Tejo –por isso fica aqui, por Lisboa. Nuno também esclarece que, de forma subtil, esta espécie tipicamente dá flor uma segunda vez, aqui ou no outro lado do Atlântico, seguindo as estações e temperaturas.

Saiba mais terminando de ler esta matária na Folha de S. Paulo

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