
02/06/2022
Em Shark Bay, na ponta mais ocidental da Austrália, pastos naturais de ervas marinhas cobrem o fundo do oceano, ondulando na corrente e sendo mordiscadas por dugongos, primos dos peixes-boi. Um novo estudo revelou algo inesperado sobre essas ervas marinhas: muitas delas são a mesma planta individual que vem se clonando há cerca de 4.500 anos.
A erva marinha –não deve ser confundida com alga marinha– é a erva daninha de Poseidon, ou Posidonia Australis. Jane Edgeloe, doutoranda na Universidade da Austrália Ocidental e autora do artigo, compara sua aparência à chamada cebolinha.
Edgeloe e seus colegas fizeram sua descoberta como parte de uma pesquisa genética de gramíneas Posidonia em diferentes áreas de Shark Bay, onde ela mergulhou nas águas rasas e tirou brotos de Posidonia de dez pastos naturais diferentes. Em terra, os pesquisadores analisaram e compararam o DNA das gramíneas.
Eles publicaram seus resultados na quarta-feira (1) na revista Proceedings of the Royal Society B. Descobriu-se que o DNA de muitas dessas plantas aparentemente diferentes era praticamente idêntico. Elizabeth Sinclair, também da Universidade da Austrália Ocidental e autora do estudo, relembrou a emoção no laboratório quando percebeu: "É uma planta só".
Enquanto alguns dos pastos naturais do norte de Shark Bay se reproduzem sexualmente, o resto de suas Posidonias se clona criando novos brotos que se ramificam de seu sistema radicular. Mesmo pastos separados eram geneticamente idênticos, indicando que já foram conectados por raízes hoje cortadas. Com base na idade da baía e na rapidez com que as ervas marinhas crescem, os pesquisadores supõem que o clone de Shark Bay tenha cerca de 4.500 anos.
Além de ser um clone, a erva parece ser um híbrido de duas espécies e possui dois conjuntos completos de cromossomos, uma condição chamada poliploidia. Embora a poliploidia possa ser letal para embriões de animais, pode ser inofensiva ou até mesmo útil em plantas. No entanto, pode resultar em esterilidade. Grande parte da grama clonal não floresce, e só consegue se reproduzir clonando continuamente a si mesma.
Essa combinação de genes extras e clonagem pode ter sido a chave para a sobrevivência da gramínea durante um antigo período de mudança climática. A clonagem facilitou a reprodução porque a grama não teve que se preocupar em encontrar um parceiro. Os genes extras poderiam ter dado à erva marinha "a capacidade de lidar com uma ampla gama de condições, o que é ótimo na mudança climática", disse Sinclair.
A Posidonia de Shark Bay não apenas sobreviveu a essa antiga mudança climática, como se espalhou. E espalhou. E espalhou mais.
Hoje, é indiscutivelmente o maior organismo vivo do mundo. O Pando de Utah (EUA), uma colônia clonal de 40 mil choupos conectados por suas raízes, é a "maior planta individual" reinante, cobrindo uma área maior que 80 campos de futebol.
Esta reportagem está disponível para leitura na Folha de S. Paulo
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