
24/05/2022
Pesquisadores brasileiros das universidades federais do Rio Grande do Norte e do ABC (UFABC) e da USP (Universidade de São Paulo) se uniram em um trabalho para mapear a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro que já conta com 13% de sua área em estado de desertificação, segundo associação.
O estudo das "Áreas Prioritárias de Restauração da Caatinga" foi realizado entre 2014 e 2021 e publicado no início de março deste ano na revista científica Journal of Applied Ecology.
A falta de políticas públicas eficientes e as mudanças climáticas aceleram a degradação do bioma, que pode ver mais de uma centena de espécies ameaçadas de extinção sumirem do mapa em curto espaço de tempo.
"A proposta de fazer o mapeamento das áreas prioritárias de restauração da caatinga surgiu quando coordenei o exercício para definir as áreas de conservação, junto ao Ministério do Meio Ambiente. Sentimos essa necessidade de definir também as áreas prioritárias de restauração", diz Carlos Roberto Fonseca, professor associado do Departamento de Ecologia da UFRN e coautor do estudo.
De acordo com o professor, para definir as áreas prioritárias de atenção o bioma foi dividido em cerca de 10 mil microbacias, classificando-as em três critérios: o valor de cada uma dessas microbacias para conservação da biodiversidade de plantas ameaçadas, a quantidade de cobertura vegetal em cada uma dessas microbacias e a importância de cada uma delas para a conectividade da paisagem.
Segundo o levantamento, 939 das bacias da caatinga são consideradas de alta prioridade para restauração. E 86 foram consideradas de prioridade máxima para restauração.
"Na caatinga existem, na verdade, 350 espécies ameaçadas de extinção, segundo o livro vermelho das espécies ameaçadas do Brasil. Cada bacia pode ter nenhuma espécie ameaçada ou até mais de uma centena", explica Fonseca.
"Para se ter uma ideia, uma única microbacia tem 106 espécies ameaçadas. Essas microbacias já estão desmatadas. Se não restaurarmos, essas espécies vão desaparecer."
O estudo também aponta que 50% de área da caatinga foi desmatada. Mas, a "boa notícia", segundo a pesquisadora Marina Antongiovanni da Fonseca, especialista em análises de paisagens e conservação de florestas tropicais da UFRN, e que também participou da pesquisa, ainda há os outros 50%.
Por outro lado, a caatinga é uma região muito recortada, o que possibilita a fácil entrada. "Ela é muito acessível às perturbações antrópicas [provocadas pela ação do homem] crônicas. Quando se fala de desmatamento, é uma perturbação aguda. Desmatou e acabou. A perturbação crônica é mais silenciosa, menos visível a olho nu. No interior daquela área remanescente está tendo exploração, pisoteio de plântulas [plantas ainda pequenas], caça, coisas que a gente não enxerga sem um estudo de campo mais detalhado."
Marina cita a criação de gado com um exemplo do fácil acesso ao bioma. "Ele começa a pisotear, defecar, e isso tudo prejudica a regeneração e manutenção das espécies nessas áreas de caatinga", diz a pesquisadora.
"Por outro lado, o homem também acessa muito facilmente. Ele consegue caçar em grandes distâncias para dentro dessas áreas remanescentes. Se puder recomendar ações para diminuir a chance de perda de espécies nativas na caatinga, uma delas é prestar atenção nesses distúrbios antrópicos, que são mais silenciosos, e conseguir entender como isso está prejudicando a fauna e a flora local."
O próximo passo, segundo os pesquisadores, é que os governos federal, estaduais e municipais elaborem ações, como por exemplo a criação de unidades de conservação de uso sustentável ou de proteção integral.
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