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Frio extremo, como o atual, também pode ser um fruto da crise do clima

24/05/2022

Temperatura abaixo dos 10º C em Cuiabá, neve em Santa Catarina e recorde de frio em São Paulo. As temperaturas baixas definitivamente chamaram a atenção nos últimos dias. Já sabemos que a crise climática exacerba especialmente ondas de calor, secas e chuvas torrenciais, mas o frio também pode acabar entrando em uma parte dessa equação. Segundo especialistas e estudos, em alguns locais e momentos, o frio extremo também pode ser associado à crise do clima.
Antes de mais nada, é importante ressaltar que não é simples apontar as relações entre um fenômeno específico —como a atual onda de frio— e a crise climática.
"Nesse fenômeno [onda de frio] é muito cedo para dizer. Temos que esperar que o evento termine e aí começamos a fazer pesquisa", afirma José Marengo, climatologista e coordenador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, sobre a crise do clima.
Exatamente para tentar resolver isso foram desenvolvidos os chamados estudos de atribuição. Eles tentam identificar qual peso a mudança do clima tem sobre eventos extremos, como secas e ciclones. Assim, os cientistas são capazes de apontar se o aquecimento global tornou mais provável um determinado evento.
Para isso, esses estudos de atribuição fazem modelagens climáticas que comparam e simulam o clima mundial, com e sem crise, permitindo observar as incidências de determinados eventos extremos. Pela complexidade, esse tipo de pesquisa não necessariamente é rápida, dificultando análise de fenômenos em andamento.
"Não é que a mudança climática explique esta onda de frio", afirma o climatologista Paulo Artaxo, vice-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU).
Mas, de toda forma, sabe-se que a crise do clima tem relação com eventos extremos dos mais diversos tipos. Um exemplo já estudado são invernos extremos nos EUA. Um estudo recente publicado na revista Science mostrou como o aquecimento do Ártico —resultado das mudanças climáticas—, em determinados momentos, interfere e enfraquece o vórtex polar Ártico, no norte do planeta. Quando isso ocorre, o ar extremamente gelado pode escapar em direção ao sul e causar frio intenso na América do Norte e na Ásia. O exemplo mais recente e impressionante disso foi o da onda congelante que atingiu o Texas, em 2021.
Apesar de um exemplo extremo como esse, de forma geral, a crise climática deve diminuir as ondas de frio e sua intensidade ao redor do globo. De toda forma, em alguns casos, elas podem ser mais extremas.
Ao mesmo tempo, graças ao aquecimento global, diz Artaxo, podemos esperar ondas de calor e secas mais frequentes e intensas. "O que a gente está alterando é a estatística, a probabilidade desses eventos ocorrerem", afirma o pesquisador.
Artaxo destaca que é preciso se preparar adequadamente para os extremos climáticos e pensar em populações mais fragilizadas das cidades, como moradores de rua.
Em São Paulo, Isaías de Faria, 66, morador de rua, morreu na quarta-feira (18) no núcleo de convivência São Martinho de Lima, no bairro do Belém, na zona leste de São Paulo. Segundo informações, ele tinha passado a noite na rua e morreu logo após entrar no centro de convivência, por volta das 8h.
Segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura de São Paulo), foi a madrugada mais fria (chegando a 7°C, com sensações térmicas menores, devido ao vento) para um mês de maio desde o início da medição, em 2004, há 18 anos.

Termine de ler esta matéria acessando a Folha de S. Paulo

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