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Na Escócia, recuperação da natureza vira negócio lucrativo

12/05/2022

Numa manhã fria de fevereiro nas Highlands escocesas, Thomas MacDonell caminhou por um terreno que parecia um tapete persa criado pela natureza. A superfície era um caleidoscópio de tonalidades de vermelho, branco e verde produzidas pela sobreposição de tufos de capim, urze e esfagno (um tipo de musgo). Ele se ajoelhou sobre uma área de turfa úmida, ao lado de uma série de ranhuras de cerca de meio metro de profundidade que percorriam linhas quase paralelas.
"Está vendo todas aquelas áreas pretas?", perguntou, apontando para as crateras que percorriam o chão. "Isso é um exemplo de turfeira danificada. A cobertura de musgo não está mais presente. Sem essa cobertura para selá-la, a turfa seca e apodrece. E quando apodrece, emite dióxido de carbono."
Pensativo e grisalho, MacDonell, 57 anos, se descreve como um "detetive da paisagem", alguém que interpreta a terra como os detetives da vida real fazem com os locais onde foram cometidos crimes. A turfa danificada representa para ele ao mesmo tempo um problema e uma oportunidade. O problema é que o dióxido de carbono emitido quando a turfa resseca contribui para a mudança climática.
A oportunidade vem de se reparar o dano, que pode vir a tornar-se um negócio de muitos milhões de dólares. Ou, pelo menos, é o que esperam MacDonnel e o dono desta propriedade, um multibilionário dinamarquês chamado Anders Holch Povlsen.
Povlsen comprou a propriedade, chamada Glenfeshie, em 2005, dando início a uma série de aquisições que de lá para cá o converteu no maior proprietário de terras privadas da Escócia. Ele é dono de 850 km² de terra distribuídos entre 12 propriedades.
Desde que se conheceram, 17 anos atrás, os dois homens colaboram em um experimento inovador do capitalismo na era da crise ambiental. Através de uma empresa chamada Wildland Ltd. estão tentando provar que é possível recuperar áreas enormes de terra de maneiras ao mesmo tempo verdes e lucrativas.
Com esse objetivo em vista, eles operam várias pousadas de alto padrão voltadas a hóspedes interessados no "poder restaurador da natureza", como diz o site da ​Wildland, e dispostos a pagar cerca de US$ 520 por noite para hospedar-se numa casa rural renovada com decoração "escandinavo-escocesa".
Se tudo correr conforme o planejado, a renda conseguida pelo plantio de árvores e a restauração das turfeiras acabará se igualando à receita das pousadas. Esse esforço produzirá créditos de carbono, vendidos através de um mercado ainda nascente, que serão comprados por empresas interessadas em compensar por suas emissões prejudiciais ao ambiente.
A parte dessa operação ligada à turfa ainda é relativamente nova. Até recentemente, as turfeiras eram desprezadas, vistas como terreno pantanoso inútil —ideais para sepultar corpos em livros de ficção policial, talvez, mas não para muito mais que isso. Os donos de terras na Escócia frequentemente drenavam seus terrenos com turfeira para plantar árvores, ou então os enchiam de ovelhas e as deixavam consumir o capim superficial.
Nos últimos anos, porém, as turfeiras vêm sendo cada vez mais valorizadas, na medida em que o mundo entendeu que não existe nada no planeta mais eficiente que a turfa para capturar carbono, potencialmente por milhares de anos, se as turfeiras forem corretamente mantidas.
"Turfeiras não são carismáticas como são as florestas tropicais, mas são mais importantes", disse Roxane Andersen, professora de ciência de turfeiras na University of the Highlands and Islands. "É como se possuíssem superpoderes."
Embora as turfeiras sejam raras na maior parte do mundo, elas recobrem cerca de 20% da Escócia, oferecendo a este país de apenas 5,5 milhões de habitantes um papel desproporcionalmente importante na campanha para combater o aumento da temperatura do planeta. O governo escocês tem consciência dessa responsabilidade e agora está subscrevendo o processo custoso e árduo de recuperação de turfeiras.
Proprietários particulares de terras que restaurarem suas turfeiras terão 80% de seus gastos reembolsados pelo governo e depois disso poderão ficar com os lucros das vendas de créditos de carbono. A Escócia disse a eles, na prática: "Podem nos cobrar pela escavação e ficar com todo o ouro que conseguirem extrair". Isso vem levando a uma corrida pela terra entre investidores.
Entre os que vêm comprando terras na Escócia assim que chegam ao mercado estão empresas de seguro de vida, fundos de private equity e a BrewDog, uma rede de cervejarias e pubs.

Termine de ler a matéria na Folha de S. Paulo

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