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Raias invadem rio Tietê no interior de SP e acendem alerta

03/05/2022

Nos últimos anos, novos moradores passaram a ser vistos nos afluentes dos rios Paraná e Tietê, no interior de São Paulo. São as raias de água doce, mais especificamente espécies do gênero Potamotrygon.
Com seu formato de disco e corpo recoberto de bolinhas pretas e amarelas que lembram uma estampa de leopardo, esses peixes cartilaginosos, apesar de não serem exóticos, são considerados invasores —isto é, não ocorrem originalmente ali. Essa presença tem acendido um alerta em especialistas.
As raias (ou arraias, os dois são usados igualmente para esses peixes que, junto com os tubarões, formam os elasmobrânquios) possuem mais de 600 espécies no mundo, das quais cerca de 30 são de água doce e endêmicas da América do Sul.
Apesar da sua presença bem demarcada na região Amazônica e no Pantanal, sua distribuição ao sul era limitada abaixo da bacia do rio Paraguai, comum apenas na bacia do rio Prata, na Argentina.
Com a formação das barragens no rio Paraná, especialmente para construção da Usina de Itaipu, levando à transposição da barreira natural de Sete Quedas, esses animais conseguiram subir o rio e já se espalham por quase todo o território do interior dos estados de São Paulo e Paraná.
Em cerca de 30 anos, os peixes já avançaram 140 quilômetros acima do Rio Tietê, uma velocidade extremamente rápida para animais com cerca de 1 metro de comprimento e que geralmente ficam na beira dos rios, sem percorrer longas distâncias.
O problema, segundo especialistas, é que as raias são animais peçonhentos e a sua presença em novos locais tem levado a um aumento de acidentes.
"A primeira vez que soube da presença de arraias no Paraná foi há 20 anos, no pontal do Paranapanema [afluente do rio Paraná], próximo ao município de Teodoro Sampaio, em São Paulo. Nesse tempo, elas subiram em uma velocidade inacreditável, e agora já há dados da presença delas no baixo do rio Tietê, em cidades como Três Lagoas e Itapura e, mais recentemente, Araçatuba e Buritama", explica o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Vidal Haddad Júnior.
Embora sejam consideradas pouco agressivas, os acidentes com as raias surgem quando são pisadas. Nesse momento, para se defenderem, elas usam suas caudas como se fosse um chicote. Elas têm também um ferrão repleto de veneno abaixo do rabo e costumam atingir principalmente pés e pernas.
Em sua pesquisa de doutorado na Unesp, a enfermeira Isleide Moreira documentou a invasão desses animais no interior do estado de São Paulo, chegando em áreas conhecidas como "prainhas", muito procuradas pelas populações locais como opção de lazer e turismo. O registro mais longevo que ela encontrou em sua análise foi em Buritama (a 531 km da capital).
Segundo a bióloga Patricia Charvet, da Universidade Federal do Ceará, as raias da família Potamotrygonidae (da qual fazem parte as espécies encontradas no Tietê) já são reconhecidas na região amazônica como uma das principais causas de afastamento por motivos de saúde dos pescadores.
"É importante destacar que a ferroada é um mecanismo de defesa desses animais. Elas vivem em geral enterradas em ambiente arenoso e não muito fundo, e é em situações assim que o acidente pode ocorrer, ou no momento de manuseio após a pesca", afirma.
Charvet ressalta que comunidades ribeirinhas na Amazônia e também na Argentina já possuem comportamento "adaptado" para as raias: os locais costumam entrar nos rios "arrastando" os pés no fundo, sem levantá-los, pois ao menor contato as raias costumam fugir.

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