
26/04/2022
O tatu-canastra é a maior espécie de tatu do mundo: pesa 50 kg e mede 1,6 metro entre o focinho e a ponta do rabo. Ele também tem uma das maiores unhas da natureza: 14 cm no terceiro dedo, uma afiada garra que ele usa para cavar tocas.
Porém, a vida não está nada fácil para o tatu-canastra. O constante e crescente desmatamento do cerrado, um de seus principais habitats, está reduzindo sua oferta de comida, além de jogá-lo em um conflito inesperado com criadores de abelhas.
Com pouca opção de cupins e formigas para comer, o Priodontes maximus (nome científico do bicho) tem atacado e destruído colmeias em Mato Grosso do Sul, em busca de larvas de abelhas para se alimentar. O "vandalismo" do tatu está causando prejuízos de milhares de reais para os produtores de mel no estado —há relatos de apicultores que, em represália, mataram o raro animal, um crime ambiental.
No entanto, um grupo de criadores sul-mato-grossense está tentando resolver o conflito em busca de paz e conservação. Nos últimos meses, dezenas deles se reuniram com biólogos e pesquisadores para desenvolver um guia de convivência com o tatu-canastra. Quem seguir as recomendações ganha um certificado internacional de proteção da espécie, o que pode gerar benefícios financeiros na hora de vender o mel.
Cerca de 700 apicultores atuam em Mato Grosso do Sul, responsáveis por 21 mil colmeias. Muitos recorrem a áreas silvestres e de plantação de eucaliptos para instalar as abelhas, locais próximos a tocas do tatu. As colmeias costumam ficar longe da presença de humanos para evitar ataques de abelhas —por isso, os apicultores só ficam sabendo da ação do canastra horas e até dias depois do ocorrido.
Em locais onde a vegetação nativa permanece intacta, o animal tem recursos à vontade para se alimentar. Porém, em pontos cercados por estradas, pastagens e lavouras, o alimento fica escasso e os tatus atacam as colmeias para sobreviver, segundo o biólogo Arnaud Desbiez, pesquisador e coordenador do Programa de Conservação do Tatu-canastra, realizado pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) e pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).
"Hoje, o habitat do tatu é extremamente fragmentado. Por isso, muitas vezes ele fica isolado em um desses fragmentos, sem muitas opções de alimentos. Ele acaba procurando as colmeias para comer as larvas", explica Desbiez.
De hábitos noturnos, o canastra aprende rápido como destruir caixas de colmeias durante a noite. Vídeos gravados pela equipe de pesquisa coordenada por Desbiez mostram sua persistência: ele fica em pé, se pendura, puxa e empurra as caixas até conseguir acesso às larvas, derrubando o mel e soltando as abelhas.
Esses "ataques" fomentaram uma imagem negativa do canastra na região, o "destruidor de colmeias", e um conflito com os produtores de mel. "Ouvimos relatos de alguns apicultores que mataram tatus, embora grande parte dos criadores esteja interessada em resolver o problema de outra forma, porque entendem que a conservação da natureza é muito importante para a criação de abelhas", conta Desbiez.
Há quatro anos, o apicultor Adriano Adames, de 53 anos, sofreu no bolso com um dos ataques do tatu-canastra. "Eu tinha um apiário com 70 colmeias. Um dia cheguei e todas estavam destruídas", conta ele, que há 30 anos produz e comercializa mel na capital Campo Grande. A montagem de uma única colmeia custa por volta de R$ 700, fora os custos de mão de obra e manutenção.
Adames conta que o dono da fazenda onde ele mantinha o apiário sugeriu uma solução drástica. "Ele me perguntou: ´Adriano, por que você não mata esse tatu?´ Eu estava muito triste pelas colmeias, mas respondi que não iria fazer aquilo. Já ouvi que alguns apicultores mataram o animal, mas eu sou contra, porque ele não é o culpado", diz.
O produtor foi o primeiro de 33 apicultores de Mato Grosso do Sul a receber o selo "Produtor amigo do tatu-canastra", que assegura o compromisso dos criadores com a biodiversidade e a proteção desses animais. O certificado é reconhecido pela Wildlife Friendly, uma organização internacional de conservação da natureza.
O selo faz parte do projeto "Canastras e Colmeias", financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que juntou biólogos e produtores para criar estratégias que evitem os ataques às criações de abelhas, mas que também ajudem a conservar o tatu.
Uma das principais orientações do manual é a melhorar a estrutura das caixas de colmeia, principalmente a altura em relação ao solo —se elas ficarem a menos de 1,3 metro do chão, o tatu consegue alcançá-las ficando de pé. Outra dica é colocar cavaletes de metal ou de madeira mais resistente à força do canastra.
Em alguns casos, o guia orienta a instalação de um alambrado ou cerca elétrica no entorno da colmeia, medida adotada pelo apicultor Adriano Adames. "A cerca dá um pequeno pulso elétrico que afasta o tatu, mas não o machuca. Ele leva um susto e vai embora", explica ele, que também compra e revende mel de outros produtores do estado.
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