
19/04/2022
Onde está a educação doméstica das pessoas? — perguntam-se o biólogo Mario Moscatelli e os cinco membros de sua equipe cada vez que encerram as ações de coleta de lixo do Projeto Manguezal da Lagoa, que recolhe resíduos às margens da água de segunda a sexta, das 7h30m às 16h. A iniciativa de revitalização da área tem o apoio da Concessionária Águas do Rio desde outubro do ano passado. Só no mês de março, ele conta, foi recolhida 1,4 tonelada de dejetos, que são ensacados e colocados na calçada para que agentes da Comlurb os recolham.
— É impressionante a falta de civilidade básica. Todo mundo é politicamente correto ao falar do meio ambiente, mas na hora de colocar um resíduo na lixeira não sabe. Lata de lixo não falta na Lagoa— frisa Moscatelli, que atua no local há 32 anos.
Neste período, foi feito o replantio de vegetação de mangue vermelho e branco, o que proporcionou a permanência ou o retorno de animais típicos da região, como caranguejos, capivaras e aves. Entre os dejetos coletados, segundo ele, há desde garrafas de vinho e long necks a embalagens de quentinha, carteiras de cigarro, copos plásticos e carrinhos de bebê.
— O carro-chefe são resíduos não biodegradáveis, como tampinhas de garrafas PET e canudinhos plásticos. O lixo é confundido com comida pelos bichos. Já vi dezenas de animais mortos entalados com tampinhas.
Moscatelli acrescenta que, apesar de coletar os grandes resíduos, os microscópicos acabam sendo ingeridos pelos animais e incorporados à cadeia alimentar.
— O microplástico está sendo encontrado até no sangue humano. Precisamos de fato sensibilizar as pessoas, explicar a importância do comportamento colaborativo de todos — afirma.
O programa Lixo Zero, da prefeitura, que tem por objetivo conscientizar a população da importância de não jogar lixo em ruas, praias, praças e demais áreas públicas, aplicou 3.523 multas entre janeiro e o último dia 4, de acordo com a Comlurb. A empresa pública explica que a fiscalização é feita por 129 agentes, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, prioritariamente em grandes corredores comerciais de bairros como Copacabana, Botafogo e Leblon e na orla. A multa para quem sujar a cidade custa a partir de R$ 243,75.
O Projeto Manguezais da Lagoa também cuida das capivaras que fazem parte da paisagem da Lagoa — e acaba de instalar cercas na altura do Parque dos Patins, na foz do Rio dos Macacos (ao lado do clube Piraquê) e na Fonte da Saudade, para evitar acidentes envolvendo humanos.
— De outubro para cá, soubemos de três ataques de capivaras a pessoas no Parque dos Patins. Cachorros sem coleira avançam nas capivaras, e os donos, quando tentam intervir, acabam sendo atacados. Antes que acontecesse algo mais sério, resolvemos cercá-las. Mas é importante que não deixem seus cães sem guia nesses trechos — destaca Moscatelli.
Ele conta que já chegou a ver sete capivaras na Lagoa. E que a hipótese mais provável é que elas tenham descido o Rio dos Macacos da Floresta da Tijuca até lá.
— As capivaras sempre existiram nas margens de rios e lagoas costeiras, mas foram sendo expulsas pela supressão de seus ecossistemas e pela caça — explica o biólogo.
Fonte: O Globo
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