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Até os cactos são ameaçados pela mudança climática

19/04/2022

O resistente cacto, que aprecia calor e aridez e é adaptado a terrenos rudes, pode não parecer uma possível vítima da mudança climática. No entanto, mesmo esses sobreviventes espinhosos podem estar perto de atingir seus limites conforme o planeta ficar mais quente e seco nas próximas décadas, de acordo com pesquisa publicada na quinta-feira (14). O estudo avalia que, em meados do século, o aquecimento global poderá colocar 60% das espécies de cactos em maior risco de extinção.
Essa previsão não leva em conta a extração ilegal, a destruição do habitat e outras ameaças causadas pelo homem que já fazem dos cactos um dos grupos de organismos mais ameaçados do mundo.
A maioria das espécies de cactos "está de alguma forma adaptada aos climas e ambientes em que vivem", disse Michiel Pillet, estudante de doutorado em ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Arizona, que liderou o novo estudo, publicado na revista Nature Plants. "Até mesmo uma pequena mudança pode ser demais para eles se adaptarem em escalas de tempo mais curtas."
Para aqueles que pensam nos cactos como mestres da resistência a todos os climas ou como plantas domésticas interessantes e de fácil manutenção, a enorme variedade dentro da família dos cactos pode ser um choque.
Para começar, nem todos os cactos habitam o deserto. Alguns vivem em florestas tropicais ou em climas frios, em grandes altitudes. Alguns armazenam pouca água em seus caules, contando com água da chuva e orvalho. Alguns ocupam ambientes altamente específicos: falésias calcárias no México, colinas de granito rosa no Brasil, uma mancha arenosa de 1,5 km quadrado no Peru. Na Amazônia, o cacto flor-da-lua gira em torno de um tronco de árvore, bem acima do solo, de modo que fica acima da linha da água quando a floresta inunda e a água pode dispersar suas sementes.
Em parte, é esse gosto definido por ambientes específicos que torna certos cactos vulneráveis não apenas às mudanças climáticas, mas também a ameaças de todos os tipos.
"Se ele for encontrado só numa área muito pequena, e alguém vier e lavrar para plantar qualquer coisa, toda a população desaparecerá", disse Barbara Goettsch, outra autora do novo estudo e presidente do Grupo de Especialistas em Plantas Suculentas e Cactos da União Internacional para a Conservação da Natureza.
O estudo analisa 408 espécies de cactos, ou cerca de um quarto de todas as espécies de cactos conhecidas, e como seu alcance geográfico pode mudar de três maneiras diferentes pelo aquecimento global neste século. Para surpresa dos pesquisadores, seus resultados não variaram muito entre os diferentes caminhos para as mudanças climáticas, disse Pillet: mesmo que o planeta aqueça apenas modestamente, muitos tipos de cactos poderão sofrer declínios na quantidade de território onde o clima é hospitaleiro para eles.
Em geral, espera-se que 60% das espécies de cactos sofram declínios de qualquer magnitude, segundo o estudo, e 14% podem sofrer declínios acentuados. Apenas uma espécie, o xique-xique, no Brasil, tende a apresentar um alcance substancialmente maior.
De acordo com o estudo, os lugares onde o maior número de espécies podem se tornar ameaçadas são geralmente aqueles com a maior diversidade de espécies hoje, incluindo Flórida, centro do México e grandes áreas do Brasil. Cactos que vivem em árvores parecem se sair especialmente mal, talvez porque suas vidas estejam tão entrelaçadas com as de outras plantas.
As perspectivas não parecem tão sombrias para o sudoeste americano, lar do icônico saguaro, disse Pillet. Mas os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre certos cactos mais raros para prever como eles poderão reagir a climas mais severos, disse ele. Isso significa que as projeções do estudo talvez não pintem uma imagem completa para algumas partes do mundo.

A reportagem completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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