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Chapada dos Veadeiros tem fauna ameaçada por agronegócio

12/04/2022

Nos quase 800 quilômetros de estrada de Uberaba (MG) a Alto Paraíso de Goiás (GO), a paisagem é a mesma: plantios de monocultura, principalmente de soja, estendem-se por todo o horizonte.
Esse uso da terra se intensifica ao norte de Brasília, a cerca de 230 quilômetros da entrada da maior área de conservação do cerrado no país, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Os fragmentos de vegetação nativa são esparsos, e a fauna local vive em constante ameaça tanto pelo avanço da agricultura quanto pela movimentação intensa nas rodovias.
O parque tem mais de 240 mil hectares de extensão e inclui diversas espécies endêmicas (que só ocorrem em uma determinada região).
Mas mesmo essa biodiversidade não está de todo protegida, segundo afirmam cientistas e ativistas ambientais da região.
O cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu perda de área, com cerca de 50% da sua distribuição perdida em menos de 30 anos. Recentemente, o bioma enfrentou a maior quantidade de queimadas desde 2012, artifício utilizado para abrir áreas para produção agrícola. Com a seca, o fogo perde o controle e encosta em áreas de preservação ambiental, como a APA (área de preservação ambiental) Pouso Alto, colada ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Para a bióloga Vívian Braz, professora da Universidade Evangélica de Goiás, a paisagem tipicamente savânica do cerrado faz com que ele seja considerado muitas vezes como "menos digno de preservação".
Na verdade, o cerrado possui diversas fisionomias, entre as quais os campos sujos e campos limpos —hoje restritos a alguns parques nacionais—, as matas de galeria e buritizais, os campos rupestres. Esta última é a que sofre mais modificação para formar pastagens para gado.
É em algumas dessas formações vegetativas que vivem as espécies endêmicas do bioma, só encontradas ali. Braz analisou, em 2008, a distribuição das populações de aves encontradas na área do parque.
"A modificação da paisagem, sem dúvida, pressiona ainda mais essas populações", explica, contando que no parque vivem mais de 300 espécies de aves. "O que eu vi é que, nos últimos dez anos, o avanço da monocultura está pressionando o parque, que já estava ameaçado."
Essa pressão, mesmo no entorno da área protegida, pode levar à extinção de algumas espécies mesmo dentro da unidade de conservação.
De volta recentemente, ela ainda não possui dados concretos, mas já observa que algumas espécies que eram frequentemente observadas na área do parque já não são vistas. Uma das espécies é o pato-mergulhão, que hoje possui apenas três populações não conectadas na região.
Além do avanço da monocultura, as queimadas ocorridas nos últimos anos ameaçam a biodiversidade. "Uma das espécies que monitoro é o galito (Alectrurus tricolor), que vive e tem como local de reprodução os campos nativos, uma das vegetações que mais sofrem com os incêndios", afirma.
Segundo o ecólogo e diretor técnico da AVE (Associação Amigos da Chapada dos Veadeiros), Nicholas Saraiva, a falta de continuidade física entre os fragmentos de cerrado e o parque, as chamadas áreas de amortecimento, deveriam também ser preservadas.
"Hoje temos alguns municípios da Chapada como Cavalcante [norte do parque], o que mais perdeu área de cerrado em 2020, segundo os dados do MapBiomas: foram mais de 25 hectares. E são áreas de plantação de soja que estão colando no parque", afirma.
O ecólogo avalia que as políticas que enfraqueceram a capacidade de fiscalização do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente nos últimos anos também dificultam ações concretas contra o desmatamento ilegal. "As pessoas são estimuladas diariamente [a pensar] que a proteção ambiental é um entrave para o desenvolvimento, mas se esquecem dos benefícios, da geração de valores de biodiversidade, do carbono, da produção de água", diz.
Procurado, o Ibama não se manifestou sobre o desmatamento ilegal ocorrido dentro e fora da área do parque.
De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), o governo realiza operações para conter a especulação imobiliária em todo o estado, inclusive em áreas como o Vale da Lua, no entorno do parque, com aumento dos esforços a partir de janeiro deste ano. "Ao todo, quatro edificações e uma área total de 1,7 hectare foram embargadas com auto de infração no valor de R$ 80 mil, no dia 13 de janeiro deste ano", disse o órgão.

A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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