
12/04/2022
Em um futuro não muito distante, a Terra enfrenta trágicas consequências de um experimento criado para deter a mudança climática: despejar substâncias químicas no céu para formar uma barreira contra os raios solares que aquecem o planeta. A tentativa fracassa. O mundo então adentra uma realidade pós-apocalíptica.
Esse é o enredo de "Expresso do Amanhã", uma produção de 2013 dirigida pelo sul-coreano Bong Joon-Ho, o cineasta consagrado por "Parasita".
Nem tudo acima é ficção científica. A ideia colocada no filme como uma possível estratégia contra o aquecimento global realmente existe: é o princípio da geoengenharia solar.
Há um centro de pesquisa na prestigiada Universidade Harvard, nos EUA, dedicado a estudar o conceito. O bilionário Bill Gates é um de seus grandes entusiastas, doando milhões para pesquisas.
E também é realidade a monumental tarefa de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C e a ameaça no horizonte de catástrofes climáticas como rotina no mundo.
Na segunda-feira dia 4, o braço das Nações Unidas voltado para a mudança climática divulgou um novo relatório, que traz um ultimato: é agora ou nunca para mudar uma perspectiva de secas severas, calor extremo, enchentes devastadoras e extinção em massa de espécies.
Se objetivos traçados não forem alcançados e as mudanças tiverem resultados apenas modestos, a temperatura média no mundo vai subir numa faixa entre 2,1 °C e 3,5 °C.
Alguns especialistas alertam que a geoengenharia solar pode ganhar força como solução nesse momento de desespero, mesmo com a possibilidade de gerar efeitos colaterais irreversíveis na parte ambiental e perigosos na política —a técnica poderia ser usada como uma imprevisível arma de guerra.
Outros afirmam que não se pode abrir mão de pesquisar saídas diante da urgência da mudança climática - linha de raciocínio adotada por Bill Gates ao falar de geoengenharia.
Em janeiro deste ano, mais de 60 cientistas de vários países lançaram uma iniciativa para que seja simplesmente proibido o desenvolvimento da técnica, que só foi estudada em simulações de computador e necessita de testes de campo.
O abaixo-assinado diz que, além de potenciais resultados desastrosos, a geoengenharia solar não resolve completamente o problema do aquecimento global - um ponto admitido por partidários do conceito.
E poderia desviar atenção da obrigação mais importante e que vem sendo ignorada: a de reduzir sensivelmente as emissões do dióxido de carbono (CO2) que retém o calor na atmosfera.
A BBC News Brasil conversou com cinco cientistas do Brasil e dos EUA, entre críticos e defensores, para explicar as implicações da geoengenharia solar.
Como funciona a geonengenharia solar?
Há diferentes técnicas que são classificadas como geoengenharia solar, incluindo algumas com intervenção sobre as águas dos oceanos em vez da atmosfera.
O princípio da técnica mais debatida hoje, no entanto, se inspira em grandes erupções vulcânicas e se chama injeção de aerossol na estratosfera.
Em 1991, o monte Pinatubo, nas Filipinas, promoveu a segunda maior irrupção de um vulcão no século 20. Deixou mais de 800 mortos e 10 mil desabrigados, além de um rastro de destruição.
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