
17/03/2022
Embora a participação de mulheres no setor de ciência e tecnologia ainda não seja equiparada a dos homens, representando cerca de 30% dos pesquisadores no mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em muitas áreas, como a Biologia, as mulheres já são maioria no Brasil. Mesmo assim, a presença feminina em cargos de liderança e de maior remuneração não é proporcional ao grande número de pesquisadoras existentes.
A ecóloga Márcia Marques, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professora titular da Universidade Federal do Paraná e vice-presidente da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Abeco), ressalta que pesquisadoras ainda sofrem preconceitos ao realizar trabalho de campo, pois muitos esperam que atividades mais pesadas sejam realizadas apenas por homens.
“Além disso, o trabalho no campo expõe as mulheres a determinados tipos de assédio e violência que só ocorre com elas”, frisa a professora.
Se na graduação as mulheres ecólogas representam mais de 60% do total, quando olhamos para a proporção de mulheres pesquisadoras de alto nível, ou seja, aquelas que recebem bolsa de produtividade nível 1A no CNPq, a proporção gira em torno de 20%.
“Isso se deve a inúmeras dificuldades, como as limitações impostas pela maternidade não compartilhada, assédio e outros componentes da cultura patriarcal que vivemos. O ponto positivo de tudo isso é que as novas gerações de cientistas já estão se organizando e reivindicando igualdade de condições também na ciência”, observa.
Márcia conta com orgulho os motivos que a levaram à carreira de cientista. “Via notícias na TV sobre espécies ameaçadas e ficava impactada. Eram os anos de 1980 e as preocupações com a conservação da natureza estavam começando no Brasil. Ficava intrigada com as notícias sobre a iminência de extinção de baleias e do mico-leão-dourado. Daquele ponto, direcionei meus esforços para esta profissão e, depois de formada, para as atividades científicas relacionadas com a ecologia de florestas”, conta.
A relação com a natureza e o amor pelos animais também foram determinantes para a trajetória da médica veterinária Flávia Miranda, membro da RECN, coordenadora do Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás do Brasil e coordenadora científica do Programa de Conservação do Tatu-Bola pela Associação Caatinga.
“Desde pequena eu queria cuidar dos animais, ser veterinária ou bióloga. Fui escoteira e estava sempre no mato acampando. Adorava feiras de ciência e tive meu real contato com a pesquisa na universidade, quando fui fazer iniciação científica. Foi amor à primeira vista”, relembra.
Ser uma pesquisadora bem-sucedida não impede Flávia de observar o desequilíbrio entre os gêneros na ciência. Ela destaca, no entanto, que uma nova geração de pesquisadoras está vindo com força total na área de conservação. “Infelizmente ainda sofremos com machismo estrutural. Tanto no trabalho no campo quanto na separação de tarefas entre mulheres e homens nos acampamentos ainda existem preconceitos. Um exemplo: os homens vão para o campo e as mulheres fazem o rancho (comida). Temos conseguido ultrapassar barreiras, mas ainda está longe do ideal”, analisa.
Outra pesquisadora apaixonada pela natureza desde pequena é a bióloga Camila Domit, membro da RECN, coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que também é coordenadora de táxon para validação das espécies de mamíferos marinhos ameaçadas junto ao ICMBio.
Filha de pesquisadores, Camila enxerga a ciência como instrumento de transformação. “É um caminho importante para quem deseja fazer parte da construção de uma sociedade melhor, de um planeta com mais qualidade de vida e mais saúde para todos, tanto humanos quanto de outras espécies”, salienta.
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