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Moradora de Mogi das Cruzes (SP) faz papel de ´guardiã da floresta´

15/03/2022

Maria Cristina Oliveira, 62, costuma acordar cedo. Pontualmente às 6h30 toma o café da manhã enquanto escuta o noticiário pelo radinho de pilha, único aparelho que consegue captar sinal na região. "Aqui fico isolada. Sem sinal de celular, TV e muito menos de internet."
Cristina, ou simplesmente Cris, vive sozinha no pico de uma serra, no distrito de Quatinga, a 43 km do centro de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Cercada por uma densa floresta, a área faz parte dos 65% do território de mata atlântica que compõem o município.
"Estou aqui há dez anos e não troco essa paz por nada. Já vi animais de todos os tipos aqui. Pássaros vermelhos, azuis e verdes. A água que eu tomo vem direto do meu poço. Sou privilegiada de poder contemplar essa riqueza", relata.
Apesar da tranquilidade do lugar, Cris vive uma luta constante desde que se mudou para lá. Nos últimos anos, a ativista fez mais de 20 boletins de ocorrência contra loteamentos clandestinos, caçadores ilegais, desmatamentos e cultivos irregulares de eucalipto na região.
"Os crimes que vemos aqui são só uma fração do que está acontecendo no Brasil inteiro. Precisamos lutar contra a boiada que deixaram passar", afirma. "Passar a boiada" foi a expressão usada pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, sobre o objetivo de flexibilizar a legislação contra crimes ambientais.
Uma das denúncias que a ativista fez ao Ministério Público de Mogi das Cruzes, em maio de 2018, resultou em uma operação conjunta entre a polícia ambiental e a Fundação Florestal na Vila Taquarussu. Na ocasião foram embargadas plantações irregulares de eucalipto e também foram apreendidos os maquinários.
Cris diz já ter sofrido represálias pelas denúncias. Os quatro pneus da caminhonete dela foram cortados em uma ocasião, em 2016. Além disso, sua casa já foi furtada logo após uma reclamação. Para a ativista, esses crimes seriam mensagens para que suspendesse suas ações.
"Eu sou como uma ‘guardiã da floresta’. Tenho essa missão de cuidar da natureza. Por isso não tenho medo", afirma.
Mesmo sem conexão com a internet no local onde mora, Cris faz uso das redes sociais para denunciar os crimes ambientais da região. Ao menos uma vez por semana, ela vai ao centro da cidade para fazer compras e lives, denunciando as infrações flagradas por ela.
"Eu sou a avó desses cantores que fazem lives hoje em dia", brinca sobre o movimento que ganhou força durante o isolamento social. "Comecei bem antes da pandemia, inclusive, comecei as denúncias no Orkut", destaca.
​O seu sítio faz parte de uma propriedade de 250 hectares de mata localizada entre Mogi das Cruzes, Santo André e Cubatão, conhecida como Chácaras Reunidas Santo Antônio. A área equivale a 350 campos de futebol.
Cris se apaixonou pela calmaria do lugar e largou o emprego e a antiga casa no bairro da Mooca, em São Paulo, para ir morar lá —além do próprio casamento. "Meu ex-marido disse: ´Ou eu ou o sítio’. Daí eu falei para ele: ´Estarei lá. Se precisar sabe onde me encontrar´", conta.
Em março de 2014, Cris fez um pedido de reconhecimento de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) à Fundação Florestal para tornar a sua propriedade uma unidade de conservação privada, pois, assim, a preservação do local seria de responsabilidade dela. No entanto, a ativista não conseguiu ainda o título.
"Resolvi eu mesma cuidar da natureza, porque me parece que as autoridades não estão interessadas em preservar o meio ambiente", opina.
Antes de se mudar para Mogi das Cruzes, Cris trabalhava em uma empresa de materiais escolares. No sítio, porém, para ter uma renda e se manter em meio à floresta, criou um camping, chamado Simplão de Tudo.
O local é um espaço destinado às pessoas que querem acampar e ter contato com a rica biodiversidade da mata atlântica. Para pernoitar, é preciso fazer uma reserva e levar a própria barraca. O espaço também é aberto para bandas, saraus, exposições e manifestações artísticas.

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