
15/03/2022
O café da manhã de muitos brasileiros e da maioria dos europeus, com o tradicional cafezinho e o suco de laranja, poderia virar uma refeição de luxo. Os preços de dois dos principais produtos de exportação do Brasil, quase símbolos nacionais, o café e a laranja, dispararam nos últimos meses devido a eventos climáticos como geadas ou secas prolongadas que afetaram as lavouras.
No Brasil o preço do café aumentou quase 60%, nos últimos 12 meses, de acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Na França, o aumento por enquanto foi mais tímido, de aproximadamente 8%, mas para um povo pouco acostumado com a inflação como os franceses, o valor pesa no bolso.
Mas, mais do que os preços, o temor na Europa é que as mudanças no clima do Brasil sejam perenes e coloquem a oferta de café e de suco de laranja no mundo em risco. Até que ponto o aquecimento global poderia estar por trás destes aumentos de preços?
Para a meteorologista e pesquisadora do Centro de pesquisas meteorológicas aplicadas à agricultura, o Cepagri, da Unicamp, Ana Ávila, a relação entre mudanças climáticas e problemas nas colheitas existe, ainda que seja um desafio entendê-la.
"A gente tem esse desafio de entender se isso faz parte de uma mudança climática ou se faz parte de uma variabilidade" do clima, explica a pesquisadora. "Mas, de forma geral, sim, as mudanças climáticas tendem a ter um impacto na produção de café e na produção de laranja".
O ano de 2021 foi duplamente impactado devido a dois eventos climáticos, o frio e a seca prolongada, que levaram a uma "confusão" nas culturas, como explica Ávila. "As mudanças climáticas tendem a ter esse impacto exatamente por conta dessa bagunça naquilo que a gente conhece como sendo o normal do clima para produzir do jeito que a gente vem produzindo."
A bagunça poderia levar a uma mudança não somente na forma de produzir, mas na geografia das culturas. Uma pesquisa realizada pelo Cepagri, em 2008, cruzou informações do zoneamento agrário no Brasil e dos cenários de mudanças climáticas, estabelecidos por pesquisadores do grupo de especialistas do clima da ONU, o IPCC.
O zoneamento agrário é um mapeamento que leva em consideração as características climáticas de uma região e características de cada cultura, definindo onde cada uma será estabelecida.
"O resultado dessa pesquisa foi que a tendência é que a produção do café migre mais para o sul, onde atualmente não plantam café, por exemplo", diz.
No caso da laranja, o clima vem sendo realmente um dos principais desafios para a cultura nos últimos anos, como afirma a especialista Fernanda Geraldini Gomes, pesquisadora da área de frutas do Centro de estudos avançados em economia aplicada da Escola Superior de Agricultura (Cepea-Esalq), em Piracicaba.
"O clima é realmente o principal fator. Já são praticamente três anos de uma produção abaixo da média e basicamente é por conta do clima. Chuvas abaixo da média ou no período de florada, no período de enchimento de frutos ou nos dois, como foi o caso da safra passada. Da safra que está acabando agora", explica a pesquisadora.
Uma das saídas usadas pelos agricultores para enfrentar as longas estiagens é a irrigação.
"Não é a maioria dos pomares que é irrigada. A gente tem hoje entre 30 e 35% da área de laranja com irrigação. Então o pessoal está tentando buscar mais esse tipo de tecnologia para evitar os riscos climáticos que estão sendo mais frequentes", diz.
Mas a tecnologia encarece a produção e tem limites, como alerta Ana Ávila.
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