
15/03/2022
O aumento da produção de lixo hospitalar durante a pandemia de Covid-19, que completou dois anos na sexta dia 11, e o descarte inadequado desses resíduos têm sido alvos de alerta da OMS (Organização Mundial da Saúde) e impulsionado iniciativas de reaproveitamento dos materiais por instituições de saúde de ponta no país.
Entre os projetos estão a transformação de comida em adubo para a produção de alimentos orgânicos, de roupas de cama e banho em bolsas confeccionadas e comercializadas por costureiras de comunidades carentes, de plásticos de embalagens em protetores faciais e até de resíduos infectantes em cápsulas de energia.
Relatório da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) de 2021 mostra um aumento de 15% na produção de lixo hospitalar no primeiro ano da pandemia no país em relação a 2019, totalizando 290 mil toneladas. A geração de lixo doméstico cresceu 4% no mesmo período, alcançando 82,5 milhões de toneladas. Em anos anteriores, a alta era de 1% ao ano, em média.
Mas a própria associação acredita que o dado esteja subestimado porque muitos serviços de saúde ainda misturam os materiais ao lixo comum. A estimativa é que 30% dos resíduos das instituições sejam despejados em aterros sem tratamento prévio.
Essa prática contraria as normas vigentes e apresenta riscos diretos aos trabalhadores da limpeza, aos catadores de lixo, à saúde pública e ao meio ambiente. Há regras claras da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sobre tratamento e acondicionamento do lixo hospitalar, de acordo com cada tipo. Por exemplo, o infectante (como sangue e outras secreções), os químicos (medicamentos), os radioativos (material radiográfico), perfurocortantes (agulhas) e resíduos comuns.
Segundo Carlos Silva Filho, diretor-presidente da Abrelpe, a produção de mais resíduos hospitalares durante a pandemia foi inevitável, pelo aumento das internações e maior uso de materiais descartáveis, para evitar contaminações —e esse volume também foi somado ao lixo gerado pela kits de testagem e pela vacinação contra a Covid.
Silva explica que não há como rastrear esse lixo gerado pelos serviços de saúde. "A gente depende muito da consciência do próprio gerador de não fazer a coisa errada."
No Brasil, mais de 3.000 municípios mantêm lixões a céu aberto. Em um deles, na cidade de Eunápolis (BA), por exemplo, catadores dizem que a quantidade de resíduos hospitalares aumentou muito na pandemia. É frequente encontrar ali frascos de soro, luvas, máscaras, faixas e algodão ainda sujos de sangue, seringas, agulhas e cateteres, alguns ainda presos em bolsas de transfusão.
"Eles se esquecem que aqui tem seres humanos que dependem do lixo até para comer", diz José, 62, que trabalha há 15 anos no lixão em busca de recicláveis. Dali ele tira R$ 600 mensais. Outras 20 famílias fazem o mesmo.
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