
10/03/2022
A Amazônia está perdendo sua capacidade de se recuperar de perturbações como secas e mudanças de uso de terra, reportaram cientistas na segunda-feira, o que aumenta a preocupação de que a floresta tropical esteja se aproximando de um limite crítico para além do qual ela terminará substituída por pradarias, o que teria enormes consequências em termos de biodiversidade e para a mudança do clima.
Os cientistas disseram que suas pesquisas não identificaram quando esse limite, o ponto de inflexão, pode ser atingido.
"Mas vale a pena termos em mente que, se chegarmos a esse ponto de inflexão, se a perda da floresta amazônica se tornar irreversível, o efeito sobre a mudança do clima será significativo", disse Tim Lenton, diretor do Global Systems Institute, na Universidade de Exeter, Inglaterra.
Perder a floreta tropical poderia resultar em uma liberação de até 90 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, que aprisiona calor, na atmosfera, o equivalente a diversos anos de emissões mundiais de poluentes. Isso tornaria mais difícil limitar o aquecimento global.
Entre os estudos anteriores havia grau considerável de incerteza quanto ao momento em que o limite poderia ser atingido. Mas algumas pesquisas concluíram que o desflorestamento, a seca e outros fatores poderiam levar a uma significativa retração florestal ("dieback") na Amazônia até o final deste século.
Carlos Nobre, cientista sênior no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), no Brasil, e um dos primeiros a alertar, mais de três décadas atrás, quanto à potencial perda da Amazônia, descreveu o novo estudo como "muito convincente".
"O estudo fez crescer minha ansiedade", disse Nobre, que não participou da pesquisa.
Cobrindo mais de 5,1 milhões de quilômetros quadrados, no Brasil e países vizinhos, a Amazônia é a maior floresta tropical do planeta e serve a um propósito crucial na mitigação da mudança no clima, ao absorver mais dióxido de carbono da atmosfera do que ela emite, quase todos os anos —em áreas onde a floresta já está mais degradada e destruída, ela já emite mais carbono do que absorve. Em sua diversidade de espécies de plantas e animais, a Amazônia é tão rica quanto ou mais rica que qualquer outra região do planeta. E ela injeta tamanha umidade na atmosfera que tem a capacidade de afetar o clima muito além da América do Sul.
Mas a mudança do clima, combinada ao desflorestamento generalizado e a queimadas para agricultura e pecuária, vem prejudicando a Amazônia, e a torna mais quente e mais seca a cada ano. A região, uma das mais úmidas do planeta, experimentou três secas do ano 2000 para cá.
A maioria dos estudos anteriores sobre a resiliência da Amazônia dependia de modelos, ou simulações, de como a saúde da floresta podia mudar ao longo do tempo. Na nova pesquisa, os cientistas utilizaram observações reais: décadas de dados de sensoriamento remoto de satélites que medem o volume de biomassa em áreas específicas, um dado que oferece uma correlação com a saúde da floresta. Observando apenas partes intocadas da floresta tropical, os pesquisadores constataram que, de 2000 para cá, essas áreas perderam resiliência. Por exemplo, as áreas de floresta vêm demorando cada vez mais para recuperar a saúde depois de sofrerem secas.
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