
08/03/2022
Ventos muito fortes são a principal causa de morte das árvores localizadas na borda sul da Amazônia.
Essa é a principal conclusão de um estudo feito por cientistas da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat) em parceria com as universidades britânicas de Leeds e Oxford.
Graças a um monitoramento que já dura quase três décadas e analisa individualmente 15 mil árvores de tempos em tempos, o grupo foi capaz de identificar os fatores que estão por trás da morte das árvores.
O trabalho mostrou que a principal causa de danos, muitas vezes irreversíveis, são as ventanias atípicas, seguidas pelos períodos de seca.
"E nós sabemos que o aquecimento global faz com que esses eventos climáticos extremos se tornem cada vez mais comuns, o que representa uma ameaça à floresta", adianta a bióloga Simone Matias Reis, autora principal do artigo.
Entenda a seguir como o estudo ajuda a fazer o diagnóstico da situação de momento e o que ele revela sobre o futuro de toda a Amazônia.
Para realizar esse tipo de investigação, os especialistas não escolheram a borda sul da floresta, que compreende os Estados de Mato Grosso e Pará, por acaso.
Oliver Phillips, professor de ecologia tropical da Universidade de Leeds, no Reino Unido, explica que essa é uma área de transição entre a Amazônia e o Cerrado.
"As áreas de transição são naturalmente mais sensíveis, então já é esperado que elas sejam as primeiras a sentir os efeitos das mudanças climáticas", diz.
O especialista, que também assina o estudo recém-publicado, chama a atenção para o fato de que essa borda sul é uma das regiões mais secas, quentes e fragmentadas de toda a América do Sul.
"Isso pode nos dar ideias de qual será o futuro das florestas tropicais, incluindo a própria Amazônia", complementa.
A engenheira florestal e ecóloga Beatriz Schwantes Marimon, que é professora da Unemat e também foi uma das coordenadoras da pesquisa, conta que os monitoramentos de grandes áreas verdes geralmente utilizam imagens de satélite, que permitem fazer análises maiores e de larga escala.
Na contramão, esse trabalho adotou uma abordagem diferente. Os especialistas iam a campo ver o estado de saúde de mais de 15 mil árvores espalhadas por 19 pontos da mata — um esforço "de formiguinha", na avaliação dos próprios pesquisadores.
"Fazemos isso de rotina há 27 anos, mas, a partir de 2008, começamos a olhar a árvore em si, o quanto da copa estava quebrada, se tinha muito cipó, se ela estava inclinada, com buracos ou outros sinais de envelhecimento", lista.
"Eu lembro de onde podia encontrar um certo jatobá, uma palmeira… E daí, quando retornava àquele lugar, um vento tinha derrubado tudo", confessa a pesquisadora.
Foi a partir da compilação de todas essas observações que o grupo conseguiu entender o que estava causando a morte dessas espécies nativas: as ventanias atípicas e os períodos de seca.
O estudo foi publicado no Journal of Ecology em 22 de fevereiro e contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq.
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