
08/03/2022
Depois de dois dias acampando em montanhas frias e remotas do norte da Colômbia, a americana Carole Turek atingiu 3.000 metros de altitude e finalmente avistou o que tanto procurava: um passarinho de apenas 12 centímetros, um dos mais raros do mundo, que bebericava flores laranjas sem ligar para a chegada dos visitantes.
O colibri-de-barba-azul era a 150ª espécie de beija-flor registrada pela fotógrafa de então 70 anos. A viagem fazia parte de sua missão de fotografar todas as 365 espécies de beija-flores do mundo, que habitam apenas as Américas, do Alasca (EUA) a Ushuaia (Argentina). Desde 2018, ela já fez 197 registros em sete países.
"Beija-flores são tão diferentes dos outros pássaros", disse Turek à Folha na enorme varanda de sua casa em Studio City, bairro de Los Angeles, enquanto dezenas de beija-flores se alimentavam em seus 16 bebedouros.
"Eles voam como insetos, são os únicos que podem voar para trás e até de cabeça para baixo. E você pode aprender a alimentá-los na mão. Há algo certamente mágico sobre eles", explicou.
Para ela, "é curiosa a percepção que as pessoas têm dos beija-flores". "Veem neles pequenas fadas graciosas ou mensageiros do céu, quando na verdade eles são agressivos, guerreiros devastadores, criaturas solitárias."
A viagem ao norte da Colômbia aconteceu em fevereiro de 2020. O colibri-de-barba-azul era considerado extinto desde os anos 1940, até uma dupla de pesquisadores colombianos encontrá-lo por acaso na Sierra Nevada de Santa Marta em 2015.
Para conseguir fotografá-lo, Turek subiu 30 quilômetros pelas montanhas com uma equipe de oito pessoas e quatro cavalos, numa expedição montada só para ela e com aval da comunidade indígena local.
O resultado da viagem está em detalhes no seu canal do YouTube, Hummingbird Spot (youtube.com/c/HummingbirdSpot/ - há legendas automáticas em português).
"Sabia que tinha que achá-lo logo porque não estou ficando mais jovem", disse Turek, que é também anestesista em hospitais de Los Angeles. "Tive três meses para me preparar para essa viagem. Comecei a malhar como louca, fazia trilhas todos os dias e arranjei uma personal trainer."
Turek recebeu a reportagem da Folha de camiseta estampada com seu beija-flor favorito, o colibri sílfide, uma imagem que ela tirou no Peru. O macho tem duas longuíssimas penas que terminam em discos azulados. Na porta do apartamento, o capacho também é temático.
Seu canal do YouTube tem mais de 72 mil assinantes e 5 milhões de visualizações. Ela publica diários de suas viagens aos domingos, além de ter uma câmera ao vivo exibindo de perto os beija-flores que frequentam sua varanda. Há também um link ao vivo de uma câmera apontada para um ninho.
Para manter seus 16 bebedouros, Turek conta com a ajuda do marido e de uma faxineira. Na época mais movimentada, entre janeiro e fevereiro, chega a usar 40 quilos de açúcar por semana para preparar a água que é o "combustível" dos pássaros.
Ela começou a alimentar beija-flores 25 anos atrás, mas só recentemente tomou gosto pela fotografia. "As pessoas olham minhas fotos e acham que fotografo há 20, 30 anos. A verdade é que faz muito pouco tempo, e a diferença é que tenho muito material para praticar", disse Turek, que comprou a primeira câmera profissional em 2017 e fez cursos online.
"Costumava sentar aqui por horas para fotografá-los e ia testando as configurações da câmera. Você aprende rápido quando realmente se dedica."
Com o tempo, ficou "meio entediada" de fotografar sempre os mesmos visitantes e decidiu viajar ao estado vizinho do Arizona, uma meca de beija-flores nos EUA. De lá, caiu no mundo.
Nos EUA, há apenas 15 espécies de beija-flores, de acordo com a American Bird Conservancy, contra mais de 40 em Honduras, a primeira parada internacional da missão fotográfica de Turek, em 2018.
Já o Brasil abriga 84 espécies, das quais 16 são endêmicas (que só ocorrem no país), segundo o Instituto Nacional da Mata Atlântica.
"Meu marido ficou super preocupado quando avisei que ia sozinha para Honduras, mas ia com um guia local e ele parecia muito bacana e eu ficaria o tempo todo com ele", contou Turek sobre o hondurenho William Orellana, da agência Beaks and Peaks, que acabou virando seu parceiro na missão.
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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