
22/02/2022
Num centro de controle no Vale do Paraíba, entre Rio e São Paulo, um grupo de pesquisadores acompanha, em tempo real, a situação das chuvas e dos rios em todo o país. Eles interpretam os dados rapidamente, enviando alertas para as cidades em perigo.
Mas o monitoramento das enchentes na Região Serrana do Rio de Janeiro começou há muito mais tempo, com a ajuda de uma figura ilustre do nosso passado.
“Ontem de noite houve grande enchente. Subiu três palmos acima da parte da Rua do Imperador do lado da Renânia; e um homem caiu no canal, devendo a vida a saber nadar e aos socorros que lhe prestaram", escreveu em seu diário o imperador Dom Pedro II, em Petrópolis, em um verão de deslizamentos e enxurradas de 1862.
Após 160 anos, as anotações do imperador brasileiro continuam abordando um tema atual. As tempestades de verão continuam. Mas será que agora elas estão diferentes?
“Então, esses fenômenos, mesmo fenômenos meteorológicos que sempre aconteceram, eles hoje estão mais intensos e muitas vezes até mais frequentes também”, destaca o professor Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP.
O aquecimento global esquenta os oceanos, e é possível que, em determinadas condições, isso acabe "turbinando" certos eventos climáticos. Mas é preciso estudar caso a caso.
“Um oceano 0,8° mais quente, ele evapora muito mais água. Então ele torna aquele ar que a baixa pressão empurrou para montanha, ele carrega muito mais umidade. Então, esse tipo de fenômeno vai causar uma chuva mais intensa do que aquela, por exemplo, que o Dom Pedro II viu lá no século 19”, explica Carlos Nobre.
Como os estragos que D. Pedro registrou no diário acontecem até hoje, um centro de pesquisas, no Vale do Paraíba, trabalha para reduzir os danos... e para salvar vidas.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) foi criado em 2011, depois que 947 pessoas morreram sob uma chuva devastadora justamente na Região Serrana do Rio.
Os pesquisadores do Cemaden enviam alertas urgentes para os municípios que estão em risco. usam informações de satélite, de radares e de aparelhos medidores de chuva e dos níveis de rios. Tudo conectado ao centro, em tempo real.
Além do que acontece em Petrópolis, o verão brasileiro de 2022 já teve chuvas muito acima da média no sul da Bahia, em Minas Gerais e em São Paulo, provocando desastres humanitários.
“Observando ao longo desse percurso histórico, esse tempo mais curto entre uma ocorrência e a seguinte, nós observamos que já é passada a hora de enfrentarmos a situação, né? Até quando? Até quando vamos precisar passar por situações semelhantes?”, questiona Maurício Ferreira, diretor do Museu Imperial de Petrópolis.
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